Juan Manuel Fangio testa a Carretera DKW "Mickey Mouse" em Interlagos - 1965

 por  Flavio Gomes, que sabe tudo sobre DKW´s  e revisão de Luis Dantas Salomão - fotos Caíque Fellows

 

No dia 7 de fevereiro de 1965, um pentacampeão mundial de Fórmula 1 sentou num carro fabricado no bairro do Ipiranga, em São Paulo e deu umas três ou quatro voltas em Interlagos, que era mais ou menos um matagal cortado por 8 km de asfalto precário e esburacado. Era um carro de corrida e, portanto, o sujeito acelerou. Piloto é feito para isso.

Juan Manuel Fangio tinha 53 anos de idade. O carro era um DKW-Vemag com chassi encurtado, feito pelo Departamento de Competições da Vemag para provas de rua, como as que eram disputadas em Piracicaba, Araraquara, na Ilha do Fundão, no Rio, e na Cavalhada, no Sul.

 

Fangio se ajeitando na Carretera DKW Mickey Mouse. Ao fundo, Carol Figueiredo e Roberto Dal Pont

Tinha um motorzinho dois tempos de 1.000 cm³ de cilindrada e uns 95 cv. Nada de excepcional, embora fosse muito bom em curvas de baixa velocidade, por causa da distância entre eixos reduzida em 30 cm. Em Piracicaba, chegou a ganhar do Porsche Carrera de Marivaldo Fernandes, o piloto que estava no avião com José Carlos Pace no acidente fatal de 1977. O automobilismo brasileiro produzia alguns milagres nos anos 60.

Fangio "subesterçando" o DKW Mickey Mouse em Interlagos - notem os curiosos no meio da pista!

Fangio estava em visita oficial ao país. Esteve na fábrica da Vemag e foi convidado para experimentar o carrinho, conhecido na época como "Mickey Mouse". "Ele nunca tinha pilotado um carro com motor dois- tempos e tração dianteira, mas aprendeu muito rápido. O cara entendia muito de automóvel", conta Miguel Crispim Ladeira, o chefe dos mecânicos da equipe que corria com carros brancos, imaculadamente brancos. Nem prata eram, como os Auto Union de grande-prêmio de antes da Segunda Guerra.


Nos anos 30 era assim: carros ingleses verdes, italianos vermelhos, franceses azuis, alemães prata. Respeitavam-se as cores usadas nos aviões desses países na Primeira Guerra. Até guerra tinha lá seu charme, antigamente; os ases das esquadrilhas podiam pintar seus aeroplanos com cores diferentes, daí a mística em torno de Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho, que era alemão.

O argentino era uma "simpatia", nas palavras de Crispim. "Não tinha frescura nenhuma, era interessado e ficou impressionado com o torque do nosso motor."

O piloto Gegê Bandeira, na corrida "I Três Horas de Velocidade do Recife", realizada em 14 de março de 1965

Esse carro aí das fotos (abaixo) ainda existe. Depois que a Vemag fechou, foi comprado por um piloto misterioso, o "Volante 13" e continuou correndo até 1967, 1968. Foi restaurado pela família do piloto, que se chamava Frodoaldo Arouca -- filho do dono das Fechaduras Arouca e que corria escondido de seu pai --  mas está sem motor. Provavelmente nunca mais vai sair do lugar, mas pelo menos existe. E Fangio andou nele....

Na curva "relevée" do Autódromo do Rio, o FNM 2000 JK de Ugo Galina de São Paulo, seguido do "Piloto 13"

Flodoaldo Arouca, Carretera Gordini Willys e Carretera VW de Brasília nos  "500 Km da Guanabara" de 1967

 

A Alfa do Mario Olivetti - de Petrópolis - se enroscou com o "Volante 13" (lá atrás) e deu um sustaço no bandeira

 

Uma bela miniatura da "DKW Carretera Mickey-Mouse" do misterioso "Volante 13"

 

Por que lembrei dessa história? Por nada. Apenas lembrei. Estava revirando uns papéis velhos e achei a foto. Fangio andando de DKW Carretera em Interlagos, quase 40 anos atrás. A gente encontra coisas inacreditáveis revirando papéis velhos e essa história não podia deixar de estar aquí, é "Obvio !"...


 Flavio Gomes 


Jornalista desde 1982, começou a carreira no 'Popular da Tarde', passou pelas rádios Cultura e USP, 'Folha de S.Paulo' e 'Placar', antes de montar a agência Warm Up, que desde 1995 cobre o Mundial de F-1 para cerca de 60 jornais brasileiros. De 1994 a 2001 foi comentarista e apresentador da Rádio Jovem Pan. Atualmente, é repórter e comentarista de F-1 da Rádio Bandeirantes, da Rádio Capital (Roma, Itália) e da revista "Quatro Rodas". Nasceu em São Paulo, 1964. Casado, dois filhos, torce para a Portuguesa. Sua maior paixão automobilística não tem nada a ver com F-1: é colecionador de DKW´s.  

 

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