A primeira corrida de Fórmula 1 no Brasil - 1972

Por Carlos "Caneta 13" Coutinho

A primeira corrida a gente nunca esquece...

Numa sexta feira à noite, na rodoviária antiga de Barretos - as paredes cobertas por taquaras envernizadas que faziam a decoração - embarquei num daqueles Diplomatas velhinhos da Empresa Auto Ônibus São Manoel com destino a São Paulo.

Eu tinha 17 anos e ia ver um sonho: uma corrida de Formula 1.

Mais do que uma corrida de Formula 1, aquela era a primeira corrida de Formula 1 a ser realizada no Brasil!

Imagina ver ao vivo a Lotus preta e dourada do Emerson! Isto sem falar da Brabham do Wilsinho, da March do Pace, e do meu ídolo Luis Pereira Bueno pilotando a March 711 da Equipe Hollywood, aquele mesmo modelo coffee-table igualzinho ao do Peterson, que também iria correr com a March! Isto, e mais o Reutemann, o Gethin (que no ano passado, em 1971, vencera o mais rápido GP da história, em Monza),  Beltoise, Dave Walker, Pescarolo, Helmut Marko.

Mesmo considerando que o Stewart não correria, nem o Cevert, nem o Hill, nem o Hulme, o simples fato de ver uma corrida de F1 ao vivo e a cores, á fazia um efeito considerável na vida de um moleque do interior como eu.

Lembro de ter descido na rodoviária ­ antiga ­ de São Paulo e ficar procurando um ônibus para Interlagos. Não tinha a menor importância o fato de ser seis horas da manhã. A Formula 1 era uma religião, e Interlagos, pelo menos naquele momento, era o seu templo.

Eu não era novo nesta história de corrida. No Rio, onde morara, vira algumas corridas na Barra e na Ilha do Fundão ­ inclusive a primeira corrida do Emerson, com um Dauphine ou Gordini, e também o lindo Fitti-Porsche, em Jacarepaguá. Em 71, lá estava eu em Interlagos para ver provas de Formula 2 ­ e dessa vez o velho Hill corria e dava para perceber que ele já estava mesmo velho. Mas era o velho Hill, naquele capacete preto com listras brancas, o mesmo grafismo do seu clube de remo em Londres.

No intervalo das baterias da Formula 2, alguém teve a idéia de colocar baterias de Formula Ford. A primeira vez que passou um carro de Formula Ford depois de um de Formula 2, a diferença de potência e performance era tão grande que as pessoas nas arquibancadas simplesmente riam. Não era um bom marketing, mesmo levando em conta que em 1972 a palavra nem existia.

Interlagos completamente lotado, eu arranjei um lugar antes da metade do retão, onde havia um grupo de catarinenses e paranaenses, todos garotos como eu, acampados ali. Só se falava em carro. De repente, aconteceu alguma coisa inesquecível para mim, na forma de um ronco agudo vindo dos boxes, lá do outro lado do circuito. Alguém acabara de acordar um daqueles monstros de 500 cavalos, que ainda se espreguiçava ao sol da manhã, falhando repetidas vezes, até se estabilizar aos poucos num rugido constante e sem falhas.

Lembro muito bem como o autódromo se calou para ouvir a voz da Formula 1.

Ficaram todos, eu inclusive, inteiramente possuídos pela mágica emblemática (uma palavra inexistente em 1972) do som de um carro de corrida.

O motor parou de funcionar, mas cinco minutos depois aquele trovão voltou a ecoar pelo circuito e vi ao longe um carro vermelho e branco sair dos boxes.

O carro fez bem mais lentamente do que eu pensava as curvas 1 e 2, mas quando chegou ao retão, seu piloto pisou fundo, talvez animado por aqueles 800 metros de pista levemente em descida afunilando-se a sua frente, e ao passar pelo ponto aonde eu estava, Jean Pierre Beltoise, na sua BRM P160 V12 olhou para os dois retrovisores ­ lembro como se fosse hoje o capacete azul e branco oscilando de um lado a outro do cockpit e depois quase sumir no mergulho da curva 3.

Ao entrar na reta oposta, que ficava lá embaixo, invisível para nós do retão devido a um barranco, o ruído fenomenal do V12 simplesmente desapareceu, dando lugar a uma espécie de assovio fino e baixo, um sopro suave, provavelmente ondas de som do impacto aerodinâmico da velocidade do carro cortando o ar. Logo depois, ao entrar na Curva do Sol, voltou a rugir, e ouvíamos pelo cortar das acelerações o piloto fazendo a curva no punta e tacco.

Em seguida vieram todos os outros. Eram quatorze carros apenas - a Ferrari não correu, a Tyrrel não correu, a McLaren não correu - mas havia dois Lotus, dois Brabham, dois Surtees, quatro BRM, quatro March. Seja como for, era muito mais do que qualquer um de nós ali no autódromo jamais sonhara ver um dia no Brasil.

E devíamos lamber os beiços: no mesmo ano de 1972, a Victory Race, não válida para o campeonato ­ onde o Pace foi 2º -  teve a presença de seis carros; a International Gold Cup em Oulton Park, não válida para o campeonato ­ Emerson 2º  ­ também apresentou seis carros; a igualmente extra-oficial  Corrida dos Campeões em Brands Hatch, vencida pelo Emerson, contou com dezenove carros,  enquanto uma prova oficial como o GP da Italia, em Monza, onde o Emerson venceu e foi campeão, alinhou vinte e sete baratinhas ­ como ainda se dizia naquela época.

Ninguém estava preocupado com isso naquele sábado de março de 1972. A verdade é que mal os treinos acabaram e o sol começou a cair no autódromo agora silencioso, a tensão da espera, a viagem de ônibus, a emoção de ver a Formula 1, tudo aquilo começou a cobrar seu tributo. Fui ficando fraco e tonto, mas felizmente os cataninenses/paranaenses me convidaram a dormir na barraca, talvez não querendo perder as dicas daquele cara do interior que sabia tudo de Formula 1 ou, pelo menos, bem mais do que eles. Dormi ao lado de uma lata de atum aberta que permaneceu durante meses na minha memória olfativa. Mas o convite foi espetacular. Se algum de vocês estiver lendo este texto, rapazes, muito obrigado por tudo.

Acho que foi no domingo de manhã. Houve um momento em que tudo parou para que o Luisinho Pereira Bueno desse uma volta pelo anel externo com seu March 711 alugado pela Equipe Hollywood. Ele passou pelo retão voando baixo, fez a curva 3 numa velocidade enorme, deu uma tiradinha de pé na junção, e bateu o recorde do anel externo.

A corrida foi o que se sabe. Emerson, o pole, liderou da primeira até a volta número 33, com vinte segundos de vantagem  para o Reutemann, quando rodou quase em frente aos boxes no meio de uma nuvem branca de fumaça de pneus ­ eu estava acompanhando de binóculo a Lotus preta e dourada precisamente naquele instante ­ e o Reutemann venceu a corrida, Wilsinho foi o terceiro e Luis Pereira Bueno o sexto. Se fosse uma prova válida para o campeonato, ele marcaria seu primeiro ponto em sua primeira corrida.

Uma charge do Ziraldo no jornal do dia seguinte resumiu precisamente a corrida: um sujeito diz para o outro ­ "um argentino ganhou o Grande Prêmio do Brasil." E o outro comenta ­ "puxa, esses cavalos argentinos ganham todas!" . A Fórmula 1 no Brasil era uma coisa tão nova - ­ deixaria de ser em setembro daquele mesmo ano, em que o Emerson foi campeão em Monza -­ que a desinformação a respeito bem que poderia fazer com que a charge fosse real.

 

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