| O vôo da fênix |
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Fortalecida nas mãos dos
alemães da Mahle, a Metal Leve sagra-se
Empresa do Ano de 2003 e conquista o
tricampeonato na 30a. versão de Melhores e
Maiores.
Por Nelson Blecher
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A maioria das empresas segue a
manada. Raras são as que se destacam por estar à
frente de seu tempo e antecipar novas tendências. A
Metal Leve é uma delas. Poucas empresas encarnam
mais fielmente as transformações provocadas pelos
diversos ciclos do capitalismo brasileiro nos
últimos 50 anos do que a Metal Leve. Surgida da
aliança improvável entre um empresário alemão,
fabricante de pistões, que abasteceu a indústria
armamentista nazista na Segunda Guerra, e refugiados
judeus que se estabeleceram em São Paulo para
escapar do Holocausto, a Metal Leve estava no lugar
certo e na hora certa -- às vésperas da era do
automóvel no Brasil.
Reconhecida pelo padrão de qualidade dos componentes
que produzia primeiro em sua fábrica no bairro
paulistano do Cambuci e depois em Santo Amaro, a
Metal Leve logo se tornou a queridinha das
montadoras. Daqui e de lá de fora. Durante décadas,
nenhuma lista com a nata das empresas nacionais
dotadas de tecnologia de ponta estaria completa se
não fosse encabeçada pela Metal Leve. Nos anos 60,
seus pistões já equipavam motores de aviões
americanos. Pioneira, criou um centro próprio de
pesquisas e foi estimulada pela Ford a produzir
também bronzinas. Apontada como uma das ilhas de
excelência da indústria brasileira, a Metal Leve
chegou a instalar uma unidade nos Estados Unidos, no
final dos anos 80.
Ninguém poderia imaginar, a começar por seus
controladores, que esse mundo perfeito pudesse um
dia desmoronar. Os tempos de mercado fechado, em que
não havia páreo para ela, eram passado. Confrontada,
nos anos 90, com as forças da globalização, a Metal
Leve começou a definhar. Eficiência e custos
competitivos passaram a ser o paradigma nessa fase,
que marcou a maior transformação da indústria de
autopeças desde 1956, quando o presidente Juscelino
Kubitschek implantou a indústria automobilística no
país.
Com a abertura do mercado, mais de 40 empresas
nacionais foram compradas ou se uniram a gigantes
mundiais do setor, entre 1994 e 1997, período em que
centenas de outras companhias dos mais diferentes
ramos de atividades também trocaram de mãos. Muitas
delas envolveram somas extraordinariamente elevadas.
Nenhuma, no entanto, repercutiu tanto e provocou
tanta surpresa e, até mesmo, consternação, quanto a
venda da Metal Leve. Sufocada pela concorrência, que
fez os preços despencar, endividada e vergada por
prejuízos de 100 milhões de dólares acumulados em
quatro anos, a Metal Leve passou ao controle do
grupo alemão Mahle, por estimados 65 milhões de
dólares, em junho de 1996. Muita gente quis chorar
por José Mindlin, um dos controladores e, até então,
o rosto da Metal Leve -- a Fiesp chegou a
desagravá-lo numa de suas reuniões das
segundas-feiras. Mesmo tendo sofrido um forte baque
emocional, Mindlin reagiu publicamente de forma
pragmática. "Para o país, é irrelevante quem é o
controlador", disse a EXAME, na época, Mindlin, hoje
com 88 anos. "A empresa vai ficar mais forte. Isso é
o que realmente importa."
A operação não chegou a representar uma ruptura
total com o passado da Metal Leve. Na verdade, como
ocorrera em boa parte de sua trajetória, os caminhos
da Metal Leve e da Mahle estavam se cruzando
novamente. O empresário Ernst Mahle, que fundara a
Mahle nos anos 20, foi o sócio estrangeiro que
participou da criação da Metal Leve, em 1949.
As palavras de Mindlin ao prognosticar um futuro
fortalecido para sua empresa revelaram-se
proféticas. Sete anos depois, a fênix ressurge. A
Mahle Metal Leve, como foi rebatizada, é a Empresa
do Ano de 2003 de Melhores e Maiores, de EXAME. A
escolha carrega um significado especial. A Metal
Leve inaugurou e agora completa um ciclo de 30 anos.
Fora ela, em 1974, a primeira Empresa do Ano da
série de Melhores e Maiores -- título que voltaria a
receber em 1980. "Conseguimos salvar uma empresa
excepcional, vitimada pelo processo de globalização,
que passou a alinhar internacionalmente os
fornecedores de autopeças", diz Franz Reimer,
presidente do conselho de administração da Mahle
Metal Leve.
Na verdade, os antigos donos da Metal Leve também
poderiam estar saboreando a conquista. Não lhes
faltaram, na hora do sufoco, propostas de associação
com outros grupos mais fortes. Só a Mahle apresentou
duas. Prevaleceu a mentalidade patrimonialista,
típica do empresário que prefere ser dono de um bolo
pequeno do que ter um pedaço de um outro bem maior.
A hipótese de se tornarem acionistas minoritários
foi descartada pelas seis famílias que controlavam a
empresa. "Tínhamos orgulho de ter conduzido a Metal
Leve a uma posição de prestígio internacional",
afirma Mindlin. "Se pudéssemos prever o que
ocorreria no setor, talvez tivéssemos concordado com
a joint venture."
NÚMEROS QUE BRILHAM: Empresa com o melhor
desempenho no setor automotivo no ano passado, a
Mahle Metal Leve acumula números vistosos. Suas
vendas atingiram 336 milhões de dólares em 2002 -- a
maior fatia dos 450 milhões de dólares obtidos pelas
empresas do grupo Mahle no país. Num ano em que a
rentabilidade média das 500 maiores empresas ficou
abaixo de pífio 1% e a do setor automotivo alcançou
suados 3,4%, a Mahle Metal Leve obteve 23,4%. Seu
grau de endividamento, de 30,4%, é praticamente a
metade da média do setor. Seu índice de liquidez
também é expressivo. Para cada real que deve, a
Mahle tem 2,48 reais disponíveis ou a receber. Em
relação ao quesito investimento no imobilizado, que
denota apetite para crescer, a Mahle Metal Leve
atingiu 34,3%, mais que o dobro da média em seu
setor.
A evolução desses indicadores, ao longo dos últimos
sete anos, foi acompanhada com lupa pelos
investidores. No dia 20 de junho passado, o lote de
1 000 ações da Mahle Metal Leve correspondia a 23
dólares -- praticamente o triplo do que valia em
dezembro de 1995. Nesse período, o índice Bovespa,
medido em dólares, valorizou-se apenas 2,1%. As
ações da Mahle fazem parte do seleto clube dos
papéis que renderam mais do que o CDI na época.
Há três anos, quem ocupa a cadeira que um dia foi de
Mindlin é o executivo Claus Hoppen, de 47 anos.
Gaúcho de São Leopoldo, bisneto de alemães e filho
de um professor que estabeleceu o idioma dos
antepassados em casa, ele conserva até hoje um forte
sotaque. "Ainda mais porque passo boa parte do tempo
falando alemão", diz Hoppen. Sucessor do executivo
Peter Grunow, que comandou a operação de compra da
Metal Leve, Hoppen tornou-se o primeiro brasileiro
na presidência da subsidiária. Ex-executivo da
Hoescht e da Melitta ingressou na Mahle como diretor
de controladoria. Por sua formação em marketing,
também assumiu a área de vendas. Nessa área, Hoppen
acabou destacando-se ao estruturar a estratégia
mundial da Mahle para o mercado de reposição. Com a
convocação de Grunow para uma importante posição no
QG do grupo, em Stuttgart, Hoppen foi o substituto
natural.
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O gosto por carros
remonta à infância, quando o garoto Claus
acompanhava, com o pai e os irmãos, corridas
de carreteras nas estradas do interior
gaúcho. Sua paixão revela-se na ante-sala da
diretoria, adornada com o Meta 20, um bólido
vermelho brilhando de novo, que um dia
conduziu o lendário piloto Chico Landi, nas
pistas de Interlagos, construído com o apoio
da Metal Leve. |
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Hoppen localizou o carro,
sucateado, num sítio na periferia paulistana, mandou
restaurá-lo e o doou ao museu de automóvel de Passo
Fundo, com direito a exibir o exemplar de tempo em
tempo. Igualmente fanático por ralis, ele mantém
troféus nas estantes do escritório, como o que
lembra a décima colocação que obteve no Rally dos
Sertões, em 1997.
Hoppen é daqueles que, em férias, despede-se da
família no aeroporto e segue sozinho para o mesmo
destino a bordo de um jipão. Possui dois: um Land
Rover e um Mitsubishi. Lamenta não poder dirigir em
viagens profissionais. Para não perder tempo faz do
carro, com laptop e motorista, seu escritório. A
cada mês, reúne-se com as equipes de cada fábrica,
onde mantém sua mesa na ala dos gerentes. Até hoje
visita clientes com freqüência. É vice-presidente da
Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, onde há 25 anos
teve seu primeiro emprego, em São Paulo, e participa
das atividades do Sindipeças, o sindicato nacional
do setor.
Nos tempos de Mindlin, famoso por sua biblioteca de
30 000 livros, a Metal Leve marcou presença nas
estantes reeditando obras culturais raras, como a
Revista da Antropofagia. Em sua gestão, Hoppen
dedica-se a resgatar algo mais afinado com o mundo
dos negócios: a história do automobilismo -- uma
modalidade que tanto a Mahle como a Metal Leve
sempre patrocinaram. Já foram editados três livros
sobre o tema. Unir esportes aos negócios é uma das
ferramentas com que Hoppen conduz a fase de
consolidação da Mahle no Brasil. Em meados de junho,
ele podia ser visto num acampamento em Parati,
acompanhado de seus diretores, às voltas com
bússolas e mapas num programa de trekking. Não foi a
primeira vez. No ano passado, foram todos praticar
esportes radicais em Brotas, no interior paulista.
Esses programas motivacionais estendem-se aos 60
gerentes do grupo e também aos principais clientes.
"São atividades que ampliam os horizontes pessoais,
úteis para ajustar as equipes", diz Hoppen.
CHOQUE CULTURAL: O principal desafio para
grupos que adotam a estratégia de crescimento por
aquisições, como o Mahle, é integrar as empresas
compradas. Em 1997, um ano depois de absorver a
Metal Leve, a Mahle uniu-se à italiana Magneti
Marelli e incorporou a Cofap. O passo seguinte foi
uma cisão: a Mahle incorporou a área de anéis; e a
Marelli, a de suspensão. Com tudo isso, outras oito
plantas somaram-se à existente na Mahle em
Mogi-Guaçu. Dois anos atrás, foi implantada também
uma linha de produção de filtros. "O principal
obstáculo está sempre na cabeça das pessoas", diz o
executivo Axel Brod, um dos três alemães no grupo de
sete diretores. "No início, foi um susto para nós,
da antiga Metal Leve", afirma o engenheiro Almazor
Giacomini, gerente de manufatura. Veterano de 30
anos de empresa, Giacomini sobreviveu aos cortes de
1 000 empregos na fase de transição. "Éramos os mais
ferrenhos concorrentes da Mahle, que víamos como um
gigante."
Com três empresas e três diferentes times em jogo --
Metal Leve, Cofap e Mahle --, somando 8 100
funcionários, o choque cultural tornou-se
inevitável. "Os funcionários das empresas compradas
nutriam certo sentimento de inferioridade", afirma
Brod. "O pessoal da Mahle, por sua vez, não estava
preparado para dar conta do recado." Divergências na
maneira de trabalhar pipocavam por todo canto. Por
exemplo: cada unidade tinha uma política própria de
recursos humanos e fazia suas próprias compras, o
que gerava desperdício. Até implementar o sistema
SAP, agora em fase de conclusão, a área de
informática, que consolida as informações de cada
empresa, parecia uma colcha de retalhos.
Num primeiro momento, a diretoria recorreu a
consultores externos. Mas logo descobriu que poderia
caminhar com as próprias pernas e passou a
implementar soluções próprias.Uma das providências
foi criar uma central de compras. Com a
centralização da estrutura corporativa em Mogi-Guaçu,
que passou a operar com um pool de serviços para as
unidades do grupo, as áreas administrativa e
financeira foram unificadas. Para evitar a
duplicação de tarefas, cerca de 200 postos foram
extintos. A equipe de informática encolheu para 95,
praticamente a metade. "A antiga Metal Leve
cultivava uma cultura paternalista e arcava com uma
estrutura inchada e cara, com excesso de diretores e
conselheiros", diz Brod. "Era o oposto da gestão
enxuta, que busca eficiência e produtividade." O
conselho de administração da Metal Leve acolhia dez
representantes das seis famílias controladoras, que
por sua vez contavam com 20 acionistas. Hoje o
conselho, presidido por Reimer, tem quatro
titulares.
Uma comprovação de que a reestruturação foi
bem-sucedida revela-se num estudo feito a quatro
mãos pelo professor Alberto Borges Matias, da
Faculdade de Administração da USP, e pelo analista
financeiro Rodrigo Pasin. Nesse estudo, a Mahle
Metal Leve desponta como uma das empresas que mais
reduziram as despesas administrativas entre as 25
que passaram por processos de aquisição. Só perde,
nesse quesito, para a Celite, fabricante de
materiais de construção, que obteve redução de 65%
nas despesas administrativas sobre a receita
líquida. A Mahle, com 62%, situa-se bem acima da
média de 22,4% alcançada por 72% das empresas
pesquisadas. Reduções como essa podem decorrer de
corte de pessoal, enxugamento de departamentos ou
aumento dos volumes vendidos. "A produção de pistões
dobrou desde 1996", afirma Hoppen. No ano passado,
saíram das linhas da Mahle 23 milhões de pistões,
mas sua capacidade instalada é de 25 milhões. O
mesmo estudo constatou que a Mahle obteve redução de
24% em seus custos de produção -- o índice mais
expressivo entre as 25 empresas pesquisadas. O que
mais trouxe sinergias foi a unificação das fundições
que funcionavam nas unidades de Santo Amaro e
Limeira na planta de Mogi-Guaçu. Só com isso vêm
sendo economizados 2 milhões de dólares anuais. Para
apoiar a expansão dos volumes, a empresa vem
investindo a cada ano 25 milhões de dólares em
tecnologia e processos. Isso sem contar o 1,2 milhão
de dólares que aplica a cada ano no centro de
pesquisa e desenvolvimento, uma das jóias que
fizeram a diferença na Metal Leve.
Instalado até hoje em Santo Amaro, bairro paulistano
da zona sul, o centro surgiu, na prática, como
conseqüência de um confronto entre os então
controladores da Metal Leve e a Mahle, o antigo
sócio. Em 1975, numa viagem à matriz do grupo
alemão, para renegociar o acordo de assistência
técnica, Mindlin foi surpreendido com uma exigência:
a prorrogação desse acordo estaria condicionada a
uma participação acionária da Mahle na Metal Leve.
"Respondi ao então presidente da Mahle que não era
algo impossível, mas que uma participação forçada
seria inaceitável", afirma Mindlin. Diante disso, ao
retornar a São Paulo, ele propôs aos sócios que a
empresa passasse a investir os 2% do faturamento
anual correspondentes aos royalties num centro de
pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, como o
bem-sucedido e rentável pistão articulado. Mais
resistente às cargas e à temperatura do motor diesel
e vendido pelo dobro do preço do convencional, o
pistão articulado brasileiro atraiu encomendas de
montadoras multinacionais como a Caterpillar. "O
cliente queria que produzíssemos nos Estados
Unidos", diz Mindlin. "Foi com encomendas
asseguradas que montamos uma fábrica na Carolina do
Sul."
Temia-se que, com a venda da Metal Leve, esse rico
patrimônio de conhecimento tecnológico brasileiro
acumulado em décadas de trabalho fosse se perder,
inclusive com um eventual fechamento do centro de
pesquisa da Metal Leve. O que sucedeu foi o oposto.
Nas mãos dos alemães da Mahle, o centro de pesquisa
e desenvolvimento ganhou uma nova dinâmica e uma
dimensão estratégica nos negócios da corporação.
Convertido em um dos quatro centros mundiais de
pesquisa do grupo -- os demais estão localizados em
Stuttgart, Detroit e Tóquio --, o brasileiro é
especializado em anéis, bronzinas e metalurgia.
"Hoje um dos focos do grupo está voltado para a
tecnologia na área de anéis", diz Brod. O
laboratório da Cofap também foi integrado ao centro,
que teve seu quadro duplicado para 95 engenheiros e
técnicos, a maioria na faixa de 30 a 35 anos.
Com orçamento anual de 16 milhões de reais, o centro
brasileiro não se limita a conduzir pesquisas
básicas em suas áreas de competência. Também
compartilha pesquisas com os demais centros do
grupo. "Graças a esse intercâmbio, nossa equipe
realizou, só no ano passado, 26 viagens
internacionais", diz o diretor Victor Gonçalves.
"Tem sido um desafio muito estimulante." Gonçalves,
de 64 anos, é prata da casa -- ingressou na Metal
Leve em 1962, após diplomar-se em engenharia no ITA.
Nessa condição, é apontado como memória viva, o mais
antigo funcionário em atividade. Gonçalves dirigia a
fábrica de bronzinas, em São Bernardo do Campo,
quando as famílias controladoras ainda tinham
esperança em manter a Metal Leve. "Uma projeção
feita na época indicou que, para continuar
sobrevivendo e competindo em igualdade com
concorrentes internacionais, seria necessário
investir 70 milhões de dólares em atualização
tecnológica num prazo de três anos", diz Gonçalves.
"Não havia condições para tanto."
Página virada, Gonçalves hoje está à frente de uma
divisão de pesquisadores que se aplicam em 238
projetos simultâneos, algo impensável no passado.
Alguns deles são estratégicos, como sugere o cartaz
afixado numa sala do andar térreo do centro:
"Confidencial". O desafio da equipe por trás da
porta é desenvolver uma matéria-prima inovadora para
a bronzina. Outras investigações têm um pé no
futuro. Visam dar respostas práticas às crescentes
exigências por reduções de ruídos e emissões dos
motores impostas às montadoras pelo mercado e pelos
poderes públicos. "Hoje a grande parcela do custo de
um produto é o investimento em tecnologia", diz
Hoppen. Uma das razões é o encolhimento do ciclo de
vida das inovações. Na era das carroças, um
componente permanecia até mais de dez anos no
mercado antes de ser substituído. Hoje mal chega a
cinco. Na unidade de filtros, as pesquisas consomem
7% do faturamento.
A importância da área de pesquisa e desenvolvimento
numa empresa de autopeças globalizada também aumenta
na medida em que os fornecedores deixaram de ser
meros fabricantes para se tornar desenvolvedores. "A
montadora nos dá os parâmetros de um novo motor",
diz Hoppen. "Cabe a nós chegar aos protótipos dos
componentes e testá-los até chegar ao modelo ideal."
É uma prática cada vez mais comum no setor
automobilístico. Somado a isso, as montadoras também
passaram a demandar de seus fornecedores sistemas,
em vez de peças isoladas. "Se você quer pesquisar
uma solução para o consumo de óleo do motor, anéis e
bronzinas estão indissoluvelmente ligados", diz
Gonçalves. Um caso recente dessa tendência é a
montagem pela Mahle de um sistema do coração do
motor, com posto de pistão, pinos, anéis e bronzinas.
Em 1999, a matriz determinou que a subsidiária
brasileira fosse a primeira a fornecê-lo. Para que o
conjunto ficasse completo faltava produzir a biela,
espécie de haste que une o pistão ao virabrequim.
Coube ao gerente de produção Alex Ricci, de 34 anos,
a missão de montar o projeto de uma usina de bielas.
"Foi minha maior missão profissional", diz Ricci,
que ingressou na Mahle como estagiário. Hoje os
componentes produzidos em Mogi-Guaçu, ao ritmo de 40
000 unidades mensais, equipam motores do minicupê da
BMW que é produzido pela Tritec no Paraná.
ESTRATÉGIA GLOBAL: Para ter uma idéia da
importância da subsidiária brasileira no grupo Mahle,
basta uma informação: é ela que gera os resultados
mais volumosos para o grupo. Mais da metade do lucro
de 80 milhões de dólares obtido no ano passado foi
proveniente da operação brasileira. Sua principal
vantagem comparativa, de acordo com Hoppen, é o
custo da mão-de-obra. Segundo dados da própria Mahle,
em 2001 o custo por hora de um trabalhador no Brasil
era de 3 dólares, enquanto no Canadá chegava a 15
dólares e na Alemanha, 22,9 dólares. De lá para cá,
o custo no Brasil caiu para 2,3 dólares, igual ao do
México.
Outra vantagem é a produção semi-automatizada, que
possibilita à subsidiária operar com uma gama
diversificada de itens. Uma planta altamente
automatizada, como as existentes na Alemanha, leva
praticamente um turno para preparar os dispositivos
da máquina e dar início à produção de uma nova
série. Por isso, essas fábricas são especializadas
em grandes séries. A estrutura flexível é que
possibilita a produção em menores séries de 20 000
itens diversificados, como acontece nas unidades
brasileiras da Mahle. "As montadoras oferecem cada
vez mais versões de motores para o consumidor, o que
faz proliferar a variedade de peças", diz Hoppen.
"Podemos fornecer quatro, cinco tipos de pistões
para motores distintos."
São fatos como esse que explicam por que a filial
brasileira vem ganhando espaço para crescer. Agora
em julho começa a operar em Mogi -Guaçu uma nova
linha de pistões para motores de pequeno diâmetro,
que equipam de motosserras a carrinhos de golfe. A
linha está sendo transferida da Alemanha, que se
tornou pouco competitiva em razão do custo elevado
da operação. "A Mahle é hoje uma empresa
completamente integrada: produz em vários países e
sabe tirar partido da flexibilidade", afirma o
consultor Win van Acker, da Roland Berger. A Mahle é
também uma das raras multinacionais do setor que,
por ter planejado sua estratégia de exportação, não
está enfrentando dificuldades em conseqüência do
excesso de oferta no mercado brasileiro. Metade dos
volumes produzidos é exportada, a maioria para os
Estados Unidos. Além disso, cerca de 42% dos
componentes vendidos no Brasil são comercializados
no mercado de reposição. O restante vai para as
montadoras. "Temos uma pizza perfeita", diz Brod.
"Graças a esse mix, podemos compensar o impacto da
retração num canal de vendas, aumentando os volumes
em outro."
Algo notável nas empresas globalizadas é que a
competição se dá tanto fora quanto internamente, com
as subsidiárias concorrendo entre si. A Mahle, com
65 unidades em 22 países, vivencia com freqüência
esse processo. Veja o caso do Brasil. No longo
prazo, a principal ameaça que pende contra sua
expansão vem da congênere chinesa. Por duas razões.
Primeira: a China é o país no qual a produção de
veículos mais deverá crescer nos próximos anos. No
ano passado, foram produzidos 3,3 milhões de
unidades. Serão 5,4 milhões em 2008, de acordo com
as projeções. Segundo: o custo de mão-de-obra na
China é menos da metade que no Brasil. "Como em
nosso segmento a participação da mão-de-obra é
expressiva, corro o risco de perder novos projetos
para a filial chinesa", diz Hoppen. Outras
dificuldades são geradas pelos contratos mundiais
firmados com as montadoras. A Mahle mantém alguns
deles com Volkswagen, Fiat e GM, para a qual fornece
componentes de um novo motor de 6 cilindros. "Para
obtê-lo, tivemos de fazer certas concessões no
fornecimento de pistões para o Opel", diz Hoppen.
"Somos pressionados pela política de globalização
das montadoras." Por vezes, o pessoal da subsidiária
se vê em apuros. Como convencer um executivo
americano de que suas encomendas à Mahle Metal Leve
precisam, por vezes, ter os preços reajustados
devido aos freqüentes aumentos dos insumos no
Brasil?
O fato é que a Mahle ainda está aprendendo a se
mover no mundo globalizado. Dez anos atrás, a
empresa ainda era tida como uma típica companhia
regional alemã. Foi premida pelo movimento do follow
sourcing, em que fornecedores são compelidos pelas
montadoras a segui-los mundo afora, que a Mahle
montou operações no México e na Polônia, assumiu o
controle da Tennex, divisão de filtros da japonesa
Nissan, e passou a controlar a Izumi, fabricante,
também do Japão, de pistões para motores diesel. São
apenas algumas das aquisições que ampliaram os
negócios e fizeram triplicar as vendas para 3
bilhões de dólares no ano passado. A despeito disso,
o grupo Mahle ainda é relativamente pequeno diante
de gigantes das autopeças, como a americana Delphi,
com faturamento de 26 bilhões de dólares anuais, ou
mesmo a Dana e a TRW, que faturam o triplo.
Um indício do aprendizado provocado pela
globalização é que recentemente o inglês começou a
substituir o alemão como língua oficial na
companhia. Foi com a ascensão, em 1995, do executivo
Heinz Junker, de 52 anos, à presidência mundial da
Mahle, que começou a mudança. "Foi ele quem trouxe a
visão internacional para a Mahle", diz Hoppen. A
cada dois meses, Junker vem ao Brasil. Com ele
também emergiu uma geração de executivos na faixa de
30 a 40 anos, a maioria recrutada na elite de
universidades européias (Junker é também catedrático
em motores), que renovou a velha-guarda.
Depois de juntar prédios,
máquinas e as logomarcas da Cofap e da Metal Leve e
da Mahle sob o mesmo guar da-chuva, Hoppen mostra-se
agora empenhado em dotar o grupo com uma dimensão
humana e institucional. "Um ponto forte de Claus é
ser um ótimo motivador de pessoas", diz Reimer,
presidente do conselho de administração. Em meados
de junho, Hoppen mandou armar uma tenda de circo nas
proximidades da fundição, em Mogi-Guaçu. Palhaços
circulavam pelo pátio da fábrica. Era a trupe dos
Doutores da Alegria -- uma ONG que anima crianças em
hospitais --, que participava da Semana do
Voluntariado, uma iniciativa para orientar o pessoal
que pretende se engajar em programas comunitários.
Para Hoppen, o assunto deve mesmo ser levado a
sério: uma condição para gerentes e diretores
conquistarem bônus, a partir deste ano, é participar
de pelo menos uma atividade voluntária. (No ano
passado, os gerentes da Mahle Metal Leve receberam,
em média, quatro salários de gratificação. Os
diretores, cinco.)
Hoppen está pessoalmente envolvido com um dos
projetos, o Formare. Trata-se de uma escola que
prepara jovens de famílias de baixa renda para o
mercado de trabalho. Durante um ano, uma centena de
adolescentes espalhados por cinco unidades da Mahle
passa o dia nessa escola. Em aulas ministradas por
técnicos e engenheiros da própria empresa, recebem
noções de comunicação e empreendedorismo, entre
outras disciplinas. "Os professores nos transmitem
sua experiência de vida e nos ensinam como se
comportar numa empresa", diz Michele Marques, de 17
anos, que sonha com uma carreira em logística ou
comércio exterior. Completado o ciclo, ganham seu
primeiro emprego na Mahle ou em algum de seus
fornecedores.
O apoio à educação também se estende aos
funcionários da empresa. Foram ministradas, no ano
passado, mais de 100 horas de aula por funcionário.
Cerca de 250 funcionários cursam graduação e
pós-graduação com metade das despesas pagas pela
Mahle Metal Leve. Os 60 gerentes fazem um MBA
ministrado pela Fundação Getulio Vargas, em Campinas
e em São Paulo. Convencido de que nenhuma empresa se
mantém competitiva se não souber lidar com seus
talentos, Hoppen concebeu um programa de dois anos
para 45 funcionários de nível médio com forte
potencial para crescer. "Nossa meta agora é estar
entre as 100 melhores empresas para trabalhar da
lista de EXAME", afirma Hoppen.
Fonte: Revista Exame – 09 de julho de 2003 |