Carlos Henrique Moyna

do site "Portal F1"

A LEGIÃO DOS ESQUECIDOS

A lapidar falta de memória dos brasileiros andou sofrendo alguns golpes recentemente, pelo menos da parte dos amantes do automobilismo. Os tradicionais encontros de colecionadores de carros antigos vêm recebendo o reforço de apaixonados que estão restaurando algumas preciosidades das pistas de corridas. O desfile de velhos bólidos no GP do Brasil de 2003 marcou a volta à vida de belos exemplares, como o Fitti-Vê, o Karmann-Ghia Dacon, o Patinho Feio e outras jóias.

No sul do país, a Ulbra montou um acervo tão caprichado no seu Museu da Tecnologia (www.ulbra.br/museudatecnologia/index.htm) que muitos que ainda guardam carros de corrida veteranos sob toneladas de poeira e entulhos têm se animado a disponibilizar seus acervos particulares. Dentro em pouco poderemos ter alguns carros da Equipe Fittipaldi, ou a March de Pace novamente às vistas do público. Quem sabe depois se siga a recuperação de dezenas desses carros cujo destino parecia ser a inexorável destruição. Onde andam os Polar dos primórdios da Super Vê? E os protótipos maravilhosos da década de 70 (Lolas, Alfas, Porsches, Heves, Fúrias, etc)?

Posso apostar que ainda há por aí uma boa quantidade de Opalas, Simcas e Fuscas de competição por aí, esperando restauro. Imaginem o delírio dos saudosistas diante do Opala azul escuro do Delamare, do Porsche da Equipe Hollywood, dos carros laranja do Team Casari ou dos carros da Equipe Willys? Os mais velhos ainda poderiam sonhar em ver velhas carreteras roncando seus motores.

Parece que os primeiros passos para esse resgate material da nossa memória estão sendo dados. É um alento aos que são obrigados a recorrer aos velhos neurônios ou às revistas amareladas que nossas esposas teimam em querer jogar fora.

Mas existe um tipo de acervo que ainda permanece no limbo: a história dos pilotos e pessoas envolvidas com o automobilismo dos tempos pré Fórmula 1.

Essa história hoje é preservada quase como os costumes de tribos moribundas – oralmente.

Se um amante do automobilismo comparecer a um evento ligado às velhas corridas, ainda pode encontrar os velhos ases, já pançudos e grisalhos, rememorando as velhas proezas e lorotas. Esbarra-se aqui com o Luís Pereira Bueno, ali com o Chiquinho Lameirão e mais adiante com o Norman Casari. Muitos estão quase irreconhecíveis depois de anos de ostracismo. Aquela senhora na mesa ao lado é a viúva de um grande mestre do Trampolim. Você descobre que aquele seu primo mais velho, ou aquele seu carrancudo colega de trabalho, também fizeram parte dos dias românticos do automobilismo nacional. É quase como se ver no meio de uma reunião de uma irmandade secreta, a dos velhos pilotos.

Mas hoje o automobilismo não é mais uma atividade marginalizada, é extremamente profissional. E porque seguirmos agindo como se o automobilismo tivesse começado com Senna ou, no máximo, com Fittipaldi? O que será feito de toda a memória dessas gerações de pilotos, mecânicos e chefes de equipe? O mercado editorial brasileiro não comporta grandes ousadias em se tratando de automobilismo. O máximo que tem sido feito gira em torno dos nossos grandes campeões da F-1 ou dos tempos de Chico Landi. Mais que isso é encalhe garantido.

Empresarialmente, portanto, está longe o dia em que um projeto que reúna o depoimento da grande massa de pilotos quase anônimos para o grande público seja bancado pela iniciativa privada. A esperança que resta é uma iniciativa de instituições culturais ou acadêmicas que recolha o acervo oral, fotográfico e documental desses personagens enquanto ainda vivem.

Muitos estão aí, doidos para contar suas experiências, com caixas e caixas de recordações para compartilhar. Alguns, infelizmente, já se foram e até mesmo suas famílias ignoram o passado glorioso dos seus entes queridos. Os nossos supercampeões Emerson, Piquet e Senna têm suas carreiras devidamente registradas em fotos, livros e vídeo e têm seus fãs-clubes no mundo todo. Mas o que será da história da legião de pilotos que construíram o nosso automobilismo, correndo no Brasil e no exterior quando as velhas revistas forem comidas pelas traças? A mídia pode não ligar, mas esses caras têm histórias fantásticas de corridas de turismo, protótipos, fórmulas nacionais, Fórmulas 3 e 2 européias e corridas americanas. Alguns foram contemporâneos dos grandes campeões. Esses personagens são parte do cenário no qual foram forjados esses campeões e alguns foram importantíssimos para o desenvolvimento de suas carreiras.

É claro que isso pode ser tachado de delírio num país cujos museus estão em ruínas e cheio de famintos analfabetos, mas não parece ser demais pedir que as pessoas – físicas e jurídicas - que lucram milhões com o automobilismo destinem uma quantia ínfima para o resgate da história da aventura brasileira nas pistas. Antes que ela vire pó.

 

SAUDADE NÃO TEM IDADE

23/05/2002

Ao longo da semana em que basicamente só se falou daqueles poucos metros antes da chegada no A1 Ring, alguns renitentes apaixonados, de maneira quase clandestina, teimavam em discutir assuntos que para o grande público, principalmente para a grande imprensa, parecem não ter o menor interesse. A história da Fórmula 1, por exemplo.

Em fóruns que reúnem iniciados nesse culto marginal à memória do automobilismo, até se falou sobre os eventos austríacos e seus antecedentes históricos, mas outros assuntos mais edificantes persistem em manter-se vivos, como o paradeiro de ídolos do passado ou detalhes das máquinas fantásticas. Um dos temas que vieram à tona nos últimos dias foi levantado depois do convite a Takuma Sato para pilotar uma relíquia, um bem preservado exemplar da Lotus 49 de Graham Hill, numa prova para carros históricos no circuito de Monte Carlo. A reação dos puristas foi de pânico, só de pensar no que o afobado japonês faria com aquela preciosidade, mesmo antes de saber que Alex Yoong ia por as mãos numa Lotus 72.

Para esquentar a discussão sobre a validade de se por em risco tais peças, o jovem japonês deu uma leve pancada com o carro nos treinos, impossibilitando-o de participar do evento principal. O malaio Yoong levou a velha 72 ao segundo lugar, mesmo com o câmbio travado em 5a marcha.
 

O que se seguiu foi uma acalorada discussão entre duas correntes desses amantes das velhas baratinhas. De um lado, fãs horrorizados com o risco de perder carros maravilhosamente preservados ou restaurados após meses de trabalho árduo. Do outro, um bando de fanáticos mais fundamentalistas que acham que esses carros foram criados, não para ficar em exibição estática ou para desfilarem em dias festivos, mas para correr, simplesmente. São como cavalos selvagens que perdem sua razão de existir se aprisionados ou adormecidos. Eles defendem que, se os donos desses carros não quisessem vê-los cumprir sua missão de voar pelas pistas não os teriam emprestado a pilotos no fogo da sua juventude.

Mesmo porque, velhos campeões, como Jack Brabham e Stirling Moss já andaram arrebentando carros valiosíssimos em eventos como o de Mônaco. Toda essa discussão, entretanto, soa irreal para nós brasileiros, que não temos o hábito de preservar nada, que não temos a noção da importância da memória de qualquer atividade humana para a nossa formação. Vendo a quantidade de carros que todo ano são agregados a essas corridas de carros antigos, vem a vergonha de perceber que não há um só exemplar de um carro de F1 em exibição hoje no país.

Há algum tempo a Auto Esporte publicou algo sobre o paradeiro dos chassis da Equipe Fittipaldi/Copersucar e de um chassi da March/Polytoys do Moco. São carros que contam muito da participação brasileira na Fórmula 1, mas estão, como muitos outros testemunhos da nossa história, abandonados e juntando poeira.

Esse nosso comportamento em relação a essas peças únicas nos deixa totalmente de fora da conversa dos estrangeiros sobre que uso se dar aos velhos carros, já que aqui não se dá uso algum. Pois então, o que foi feito dos carros citados acima com vistas à sua preservação e usufruto dos fãs? Por onde andam os carros maravilhosos da coleção dos Fittipaldi, que incluía alguns dos carros mais importantes da década de 70?

Isso sem falar de outras preciosidades escondidas por seus donos em garagens poeirentas, como o chassi da Shadow que existia nos anos 70 guardado dentro das oficinas da Polar, no subúrbio do Rio. Não é possível que um país que teve três campeões mundiais, uma equipe de Fórmula 1 e que organiza corridas da categoria há trinta anos não tenha uma única coleção sobre o tema aberta ao público. Isso para ficarmos só na F1, porque também há muito o que contar sobre nosso automobilismo doméstico. Enquanto isso, permanecem infestadas de mato imensas áreas ociosas dos nossos autódromos.

E para não dizer que falei dos podres, realmente não dá para evitar por a mão na fedentina causada pela Ferrari. Não, não gostei daquilo. Confesso que disse algumas palavras muito feias nas últimas três voltas do GP da Áustria, a partir do momento em que pressenti o gosto de marmelada, mas não dá para negar que casos semelhantes sempre aconteceram. Talvez todo o meu asco seja provocado pela futilidade da tal decisão, ou quem sabe devido ao histórico de azares de Rubens Barrichello, mas eu acho que o motivo é outro.

Se fosse algo tão simples, eu deixaria de ter engulhos com o passar do tempo e colocaria o sucedido na mesma galeria de outros fatos lamentáveis e evitáveis do esporte motor. Afinal, a cúpula da Ferrari não está de todo errada quando diz que toda a celeuma só faz aumentar o interesse pela categoria, ao invés de afastar o torcedor. Ela está apenas sendo cínica.

Eu estou começando a achar que há um pingo de saudosismo distorcendo minhas opiniões, um sinal da idade. Afinal, Fangio pegava o carro de seus companheiros para vencer corridas que já havia abandonado, Stewart mantinha o jovem Cevert aprisionado atrás de si como verdadeiro segundo piloto, Senna vetou a contratação de Warwick e assim por diante. Mas os grandes campeões (ou apenas grandes homens) também eram capazes de gestos grandiosos, de desprendimento ou cavalheirismo, que outrora chamávamos de esportividade.

Numa época em que as estrelas do esporte estão cada vez mais fechadas no seu individualismo, exigir de outro piloto que ele seja um "companheiro camarada" e não tenha apego à glória de vencer é muita crueldade. Ou apenas safadeza.
 

Carlos Henrique Moyna - Coluna de 17-04-2003 -  40 anos, é arquiteto, tem escrito crônicas para sites especializados em automobilismo desde 1998, principalmente sobre a Fórmula 1, que acompanha desde 1972 e teve alguns dos textos publicados no livro Rápidas Palavras, em co-autoria com Carlos Fernando Rego Monteiro e Luís Maximo.

Veja a coluna do Carlos Henrique Moyna no site http://www.portalf1.com !

Nota da Equipe Obvio ! : É isso aí Carlos, concordamos com tudo que você escreveu e de nossa parte estamos tentando organizar um "parque temático" no Rio de Janeiro para que os donos destas raridades do  automobilismo brasileiro possam mostrá-las ao público com todo o carinho e respeito que merecem, participando de parte da bilheteria...

 

clique aquí para voltar à anisio campos = automobilismo brasileiro anos `60 a `80