Uma história bem vivida

Sexta-feira, 27 de novembro de 1998

por: REGINALDO LEME

 

A emoção maior que o automobilismo poderia dar-me neste final de ano foi a da homenagem que o Porsche Club do Brasil prestou à antiga equipe Hollywood, numa manhã de sábado, em Interlagos. Um reencontro com a fina flor do automobilismo brasileiro de uma época em que ainda lutávamos para marcar presença internacional e não conhecíamos o caminho para chegar à F-1. Luizinho Pereira Bueno, Anísio Campos, Lian Duarte, Chiquinho Lameirão, Tite Catapani, Carol Figueiredo, Maneco Cambacau, Jan Balder, Bob Sharp, Roberto Dal Pont e Jorge Lettri foram ídolos que cultivei desde criança e com os quais pude comemorar essa alegria. De quebra, ainda revi Graziela Fernandes, uma pioneira ao lado de Lula Gancia, na defesa da presença da mulher nas pistas.

 

No palco da festa, o carro que fez história nos anos 70 - o Porsche 908/2, uma raridade construída em 1969 (foram produzidas menos de 50 unidades), que chegou ao Brasil em 71 para vencer logo na estréia com Luizinho Pereira Bueno e colecionar um grande número de vitórias nos anos seguintes. Entre tantas conquistas, o 908 foi ainda o primeiro carro a estabelecer uma média de velocidade acima dos 200 km/h numa edição dos 500 Quilômetros de Interlagos disputada no circuito externo do autódromo.

       

O carro, restaurado em 1998 e com a sua pintura original, é o grande remanescente da gloriosa equipe Hollywood. Idealizada por Anísio Campos e Luizinho Pereira Bueno e batizada como equipe Z antes de se associar ao patrocinador que a acompanharia por quase duas décadas, ela foi a primeira manifestação profissional do automobilismo brasileiro. E deixou pelas pistas um rastro de paixão que o tempo não apaga. Nem o próprio Luizinho, o ídolo maior da equipe, na sua simplicidade imaginava que um dia daria tantos autógrafos. Ele atendeu a duas horas de fila formada por pessoas que sabem da importância que esses pioneiros tiveram para que um dia o Brasil conseguisse encontrar o caminho da Fórmula 1. Émerson acabou sendo o mensageiro escolhido. Que escolha feliz.

 

Antonio Hermann, presidente do Porsche Club, contou que, no dia em que o carro chegou, chamou Luizinho e Lameirão a Interlagos. E, quando tirou a lona de cobertura, viu o tempo passar na expressão emocionada dos dois. A vida é bonita para quem tem certeza de ter vivido como queria...

 

A geração que começou tudo !

Sexta-feira, 5 de setembro de 2003

Esta semana passei algumas boas horas em conversa com meu primeiro ídolo no automobilismo, Bird Clemente. Para os mais novos, que não conhecem a história antiga do nosso automobilismo, vale dizer que Bird era a referência da geração dos anos 60, aquela que foi um marco para os primeiros passos da internacionalização de nossos pilotos. Sobrava talento naquela geração, e coube justamente ao mais jovem representante dela, que era Emerson Fittipaldi, o papel de enfrentar um desafio que eles sabiam ter chegado a hora de enfrentar. Bendita coragem!

Foi esta geração que me levou, muito cedo, a freqüentar as pistas e, mesmo com receio de que minha memória falhe 40 anos depois, me arrisco a citar outros nomes que fizeram parte dela: Nilson Clemente (irmão de Bird), Jayme Silva, Toco, Ciro Cayres, Luisinho Pereira Bueno, Marinho Cesar de Camargo, Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Camilo Christófaro, Marivaldo Fernandes, Anísio Campos, Chiquinho Lameirão, Jan Balder, Carol Figueiredo, Maneco Cambacau, Norman Casari, Ricardo Achcar, Luis Fernando Terra Smith, Totó Porto, Ubaldo Cesar Loli, Rodolfo Olival Costa, Pedro Vitor de Lamare, Eduardo Celidônio, Antonio Carlos Avallone, Walter Rahn, Piero Gancia, Emilio Zambello, Volante 13 (corria com DKW branco número 13 e usava pseudônimo, talvez por não gostar de seu nome, Frodoaldo Arouca).

A geração teve também Christian Heims, que morreu em Le Mans, e Cacaio, que morreu em Petrópolis, dois que não cheguei a conhecer. Chico Landi e Fritz D'Orey foram antecessores deles e correram na Europa até mesmo numa época em que a F-1 ainda não havia sido criada oficialmente. Para mim, eram todos heróis, dentro dos seus Karman Ghia, DKW, berlineta Willys-Renault, Simca, Alfa e as famosas carreteiras com motor de 5 litros e perto de 500 cavalos.

Em algumas provas mais tradicionais, as equipes traziam carros importados para eles. Aliás, os chefes de equipes, como Luis Antonio Greco, Jorge Letry, e Paulo Goulart também eram ídolos, tanto quanto os pilotos. Hoje me faltam nomes, que, com calma, eu posso buscar nas edições antigas de Auto Esporte e 4 Rodas.

A Europa não era um objetivo. O negócio para eles era correr pelo prazer e, quando muito, pelo prestígio de ser um piloto oficial da Willys ou da DKW.

Bird e Marinho, quando defendiam a DKW, tinham direito a um carro da fábrica para uso pessoal, o que era um grande privilégio. Bird, aliás, foi o primeiro piloto brasileiro a ganhar salário para correr, quando trocou a DKW pela Willys. Mas, enfim, tudo isso é para dizer que o automobilismo brasileiro não tem uma história bem contada, e esta foi uma das razões de nosso encontro.

E eu ouvi tantas, que um dia começo a contá-las aqui para vocês. Mas vale uma chamadinha para os mais novos saberem que o talento do brasileiro para as corridas de automóveis não começou ontem. Na década de 50, quando o recorde da pista velha de Interlagos era de Chico Landi, com 3min46s, Juan Manuel Fangio, na época já campeão mundial, veio fazer um treino, pilotando um carro mais moderno, e virou 3min51s.

Interessante ver o que acontece com a gente em alguns dias especiais. Num mesmo dia eu tive esta conversa com Bird Clemente no almoço do Café Journal, e, à noite, dei de cara com Franz Beckenbauer no Fogo de Chão. Bendito dia!

 

Nota: Artigo "Uma história bem vivida" enviada por Anisio Campos e Artigo "A Geração que começou tudo" enviado por Fernando Goulart, filho do Paulo Goulart - todos os direitos reservados ao Colunista Reginaldo Leme.

 

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