A Escuderia Dacon vencia todas as provas com os Karmann-Ghia / Porsche...

Capa dos arquivos do acervo pessoal do Paulo Goulart com centenas de informações e fotos
de todas as corridas que a Dacon participou...

A presença da escuderia Dacon em nossas provas automobilísticas tem duplo significado: primeiro, representa uma força competitiva em pé de igualdade com os mais fortes e, portanto presta maior brilho e atração às corridas (e isso não é pouco para um esporte que tanto necessita crescer no Brasil); segundo, ela está contribuindo em alto grau para o progresso técnico do nosso automobilismo, o que também já é muito.
Daí o nosso interesse em ouvir Paulo Goulart sobre as atividades da Dacon e suas esperanças, bem como revelar os motivos que o levaram a competir.
TUDO COMEÇOU COM CHRISTIAN HEINS.
Foi no amplo salão de recepções da Dacon que o Engenheiro Paulo Goulart contou-nos a sua história:

Paulo Goulart afirmou à AE: "Eles pegaram a pessoa errada. Quanto mais
procuram me eliminar das competições tanto mais me empenho em correr e em ganhar".
- “Fui amigo de Christian Heins e dessa amizade nasceu a idéia de representar a Porsche no Brasil". Christian trabalhara quatro anos para a Porsche na Alemanha e os dois amigos se entusiasmaram com as perspectivas do empreendimento. Entretanto, o futuro lhes reservou caminhos opostos. Em vez de introduzir a Porsche no Brasil, Christian Heins aceitou o convite da Willys para construir o Interlagos, do qual se originaram justamente os maiores adversários da Dacon: os Alpines 1300!
Mais tarde, Heins foi vitimado por acidente em Le Mans, e afinal Goulart ficou só com o projeto que ambos tinham acalentado.
O SONHO COMEÇA A SE TORNAR REALIDADE
Em princípio de 1964, Paulo começou a importar os primeiros motores Porsches 1600, tipo 95-SC, por intermédio da RAMPSON, uma fábrica de peças de alumínio que tinha sociedade com Dilson Funaro (ex-Ministro da Fazenda).

José Luiz "TATICO" Rosatelli (sócio e amigo do Paulo desde os tempos em que ambos moravam em Santos e foram amigos de Faculdade), Paulo Goulart, Rodolfo Sevecenco e Duílio com um dos vários motores Porsche 356 1.6
Litros com dupla carburação Solex PII-40 que o Duílio trouxe da Alemanha desmontado nas malas, ainda na empresa
RAMPSON - que significava a junção das iniciais "R" de Renata, esposa do Paulo; AM de Ana Maria, esposa de Dilson
Funaro; P de Paulo e SON de Dilson Funaro (Essa viagem foi uma epopéia e merece um capítulo à parte).
“- A intenção era preparar um carro-esporte conjugando carrocerias Karmann-Ghia com mecânica Porsche, cuja adaptação já tínhamos estudado. Os pontos de encaixe casavam perfeitamente: motores, freios, coluna de direção com volante, painel com conta-giros, velocímetro, manômetros de temperatura e pressão e marcador de gasolina, calotas e emblemas.

Detalhe da suspensão reforçada do Karmann-Ghia / Porsche - Dacon
O motor cabe direitinho no Karmann-Ghia. Por fora só se nota o cano de escapamento maior do que o do Volks. Mas a única modificação adotada foi o reforço da suspensão. - “E não houve problemas?" - “Não. Afinal, quem faz as carrocerias para a Porsche na Alemanha é a mesma Karmann-Ghia", explica Paulo.

O motorzão importado Porsche 904 de 2 litros e 200 HP´s !
Em testes, notou-se que o Karmann-Ghia/Porsche atingia 190 km/h em velocidade de cruzeiro. Por outro lado, acreditava-se que deveria apresentar excelente resistência nas pistas, devido à sua robustez. Mas naquela época, ninguém tinha cogitado de corridas. - “Foi em julho de 1964 que a idéia surgiu, pois dos 18 conjuntos assim formados, 17 foram vendidos com sucesso. Um ficou para uso pessoal de Goulart
Paulo encontrava-se na Guanabara, às vésperas de uma corrida da Barra da Tijuca, quando Chico Landi insistiu com ele para inscrever o Karmann-Ghia Porsche como protótipo, assegurando-lhe que teria boas possibilidades. O motor Porsche foi colocado no Karmann-Ghia do Paulo e o Rodolfo Sevecenco e o Duílio o levaram para o Rio de Janeiro para uma prova de rua na Barra da Tijuca pois ainda não havia o autódromo e Chico Landi o pilotou, tirando o primeiro lugar e vencendo os Malzonis, Giulias e Willys".

O motor cabe direitinho no Karmann-Ghia. Por fora só se nota o cano do escapamento, maior do que o do Volkswagen.

Paulo Goulart da Dacon trouxe de São Paulo seu primeiro Karmann-Guia Porsche com motor 1600 tipo 95-SC,
que foi pilotado por Francisco "Chico" Landi e venceu a 1000 MILHAS DA GUANABARA em 26 de julho de 1964 ...
Aquí chegando no Rio e abaixo passando em frente ao Canal de Marapendi, no Circuito de rua da Barra da Tijuca.

Abaixo a incrível sequência de fotos do MOCO nas 250 MILHAS DE INTERLAGOS em dezembro de 1965 que
chegou em terceiro lugar, entortando seu Fusca No. 2 para empurrar a Alfa 45 do Marivaldo Fernandes ....
E a coincidência do destino: morreram juntos em um acidente com o avião do Marivaldo...



PAULO COMPRA A MAIOR "BRIGA" DE SUA VIDA
Aquela vitória teve consequências inesperadas. Muita gente não gostou e reclamou. Trataram de modificar o regulamento com o objetivo de desalojar o Karmann-Ghia com motor Porsche das competições. Começaram alegando que, sendo um protótipo, "-só poderia participar “Hors Concours“. A diretoria do Automóvel Clube acabou proibindo-o de correr, porque, segundo sua interpretação”, os protótipos estavam excluídos do regulamento internacional “,

A estréia em 10 de julho de 1966 na Prova Inaugural do Autódromo Internacional do Rio de Janeiro
"Governador Negrão de Lima" - no "PRÊMIO ESSO DE VELOCIDADE", do Protótipo Karmann-Ghia / Porsche -
Dacon No. 2, pilotado por José Carlos "MOCO" Pace, que tirou segundo lugar, vencido por Carol Figueiredo
com o Alpine 1300 No. 47 da Equipe Willys e Piero Gancia de Alfa-Giulia II Super.
Mas Goulart recebeu essa "onda" como um desafio. Foi coligindo dados e fatos internacionais e apresentou-os aos Diretores da entidade, tentando provar que estavam enganados. Tudo em vão. Não davam o braço a torcer.
SURGE A DACON
Foi então que Paulo comprou o prédio da Dacon, investindo nele grandes somas. Reformou-o, embelezou-o e ampliou suas instalações, que hoje atingem quase um quarteirão.

Freio a disco Porsche com rodas de cinco furos, usados pela Dacon
"Adotei a representação da marca de minha preferência, a Volkswagen", frisou. Ali havia campo propicio para montar sua escuderia. E Paulo teve uma "idéia-mãe": para superar as interpretações do regulamento, iria competir com Volks. A partir da carcaça do motor, passou a construir o tipo 1600, maior e mais potente, adaptando-o ao sedan.
A Ramson transformou-o em fábrica de 'motores em pequena escala, - “Assim voltamos a participar das corridas" - continuou Paulo. - "Ninguém podia impedir-nos, porque o carro era todo o Volks, um “Pé-de-Boi” com motor 1 600". José Carlos Pace conduziu o Pé-de-Boi nas 250 Milhas de Interlagos, na qual participaram as Alfa-Giulias, Alfa-Zagato e todas as carreteiras, chegando em 3º. Lugar, atrás de Camillo Christófaro e Caetano Damiani.

Os Mecânicos da Dacon começam a montar o conjunto Porsche no chassi do Karmann-Ghia
com o qual Wilsinho correu os IX 500 Quilômetros de Interlagos.
Um mês depois (em dezembro) tira o 2.0 lugar, perdendo apenas para Camilo, com seu motor de 450 HP contra os 110 HP do Pé-de-Boi. Passaram a melhorar o motor. Enquanto isso, o mando do automobilismo passou para a Confederação (CBA). A luta para incluir o Karmann-Ghia nas competições continuava sem êxito.
REVIRAVOLTA DO DIA PARA A NOITE
E Paulo comenta com uma ponta de sorriso: - “Eis que, um dia, a Willys resolveu lançar os Alpines, conjugando a carroceria da berlineta Interlagos com motores Renault 1300 importados. Após uma reunião de diretoria da Willys, o que até então parecia impossível tornou-se, misteriosamente, possível do dia para a noite.
"A CBA anunciou, no dia seguinte, que os protótipos podiam tomar parte nas corridas. Assim que me comunicaram essa decisão, tratamos de instalar o motor Volks 1600 no Karmann-Ghia, que apresentava melhor coeficiente aerodinâmico. Por coincidência, o número do carro é 2 e chegávamos sempre em segundo lugar. "Mas a imprensa toda, com exceção do "Estado de São Paulo", noticiava sempre o nosso protótipo como sendo o Karmann-Ghia / Porsche. E tanto insistiram que resolvi fazer mesmo o Karmann-Ghia com motor Porsche“. Importei mais alguns motores da Alemanha (desta vez o 2 litros) e o resultado aí está.
PERSPECTIVAS
Hoje, a equipe está formada por "Moco" Pace, Antônio Carlos Porto Filho (Totó), Ludovino Perez e Wilson Fittipaldi Jr. E estão cuidando de importar motores Porsche de seis cilindros Carrera 6, injeção direta e 250 HP (foi com esses que a Porsche tirou do 4º. ao 7º. lugar em Le Mans).

O interior do Karmann-Ghia no.2 com mecânica, painel e componentes Porsche
Eles serão instalados entre-eixos numa carroceria Karmann-Ghia toda de plástico (com redução de 300 quilos no peso). Os moldes estão sendo preparados por Anisio Campos. O conjunto será dotado de freios a disco nas quatro rodas. E a escuderia deve passar para novas instalações, em separado, porque cada vez que um mecânico mexe nos protótipos, ou liga o motor, os outros largam seus afazeres na oficina e vêm espiar, fascinados.
Paulo Goulart diz que, até hoje, investiu 40 milhões de cruzeiros na sua escuderia, mas achamos que ele está sendo modesto. Quisemos saber quanto custaria um Karmann-Ghia com motor Porsche para particulares e a resposta foi: "de 17 a 20 milhões de cruzeiros". Como o leitor pode ver pelas fotos, a Dacon tem pelo menos três desses protótipos. Quem se habilita? ...

Paulo Goulart (centro), ladeados por Wilsinho (esquerda) e Môco (direita). Ao fundo, o Karmann-Ghia no. 2.
Publicado na Revista Auto Esporte - DACON - UMA EQUIPE QUE CRESCE EM novembro de 1966
Os números dos Karmann-Ghia Porsche eram 2 - pilotados por Anisio Campos e José Carlos "MOCO" Pace; o 6, pilotados por Antonio Carlos "TOTÓ" Canto Porto e Ludovino Perez Junior; o 7 - pilotados por Emerson "RATO" Fittipaldi e Francisco "CHICO" Lameirão; o 12 - pilotados por Rodolpho "BIGODE" Olival Costa e Lian Duarte e o 77 - pilotados por Wilson "TIGRÃO" Fittipaldi e José Carlos "MOCO" Pace...

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Os adesivos da Escuderia Dacon: "Tartaruga No.2" do Moco e "Corujinha No. 6" do Anisio...

A chegada consagradora dos três carros da Equipe Dacon: o no. 77 em 1o., o no. 7 em 2o. e o no. 12 em 3o.

Tudo era alegria e popularidade para quatro dos vencedores da Escuderia Dacon: Moco, Chiquinho, Rodolpho e Emerson.


Os pilotos Anisio Campos e José "MOCO" Carlos Pace nos ombros de Emerson e Wilson Fittipaldi

Emerson Fittipaldi, líder quase até o fim, foi carregado, enquanto chorava...

A Equipe Dacon saúda Camillo Christófaro, antes das Mil Milhas de 1968 no Autódromo de Interlagos
A corrida em Brasília, com a Catedral ainda em construção

Clique aquí para ver Os KG-P chegando e correndo em Jacarepaguá Rio de Janeiro em 1967 !


Um vista rara do painel completo de Porsche com o volante F-1 da fábrica do Emerson, logotipo feito pelo Anisio

Briga boa de ver e ouvir... mas os K-G / P eram muito fortes...



O motor Porsche da 904 2.0 com quatro comandos e dois distribuidores que equipavam os K-G/P Dacon

Os números e os pilotos dos Karmann-Guia / Porsche Dacon:
No. 2 - Anisio Campos e José Carlos "MÔCO" Pace
No. 6 - Antonio Carlos "TOTÓ" Canto Porto e Ludovino Perez Junior
No. 7 - Emerson "RATO" Fittipaldi e Francisco "CHICO" Lameirão
No. 12 - Rodolpho "BIGODE" Olival Costa e Lian Duarte
No. 77 - Wilson "TIGRÃO" Fittipaldi e José Carlos "MOCO" Pace
Quer saber mais sobre os Karmann-Ghia / Porsche ??? clique nos links abaixo !!!
Clique aquí para conhecer as Histórias da Dacon, contadas por quem as viveu ...
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Clique aquí para ler "LEGIÃO DOS ESQUECIDOS" e SAUDADE NÃO TEM IDADE" de Carlos Henrique Moyna
Clique para ver os Karmann-Ghia / Porsche - Dacon na Classic & Sports Cars 2003
Clique para conhecer uma notável maquete do Karmann-Ghia / Porsche Dacon
Clique aquí para ver os K-G/P - DACON chegando e correndo em Jacarepaguá - Rio de Janeiro em 1967 !
Veja um Karmann-Ghia / Porsche - Dacon no "Porsche-Day" em Interlagos - 2001
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