Monografia das Pistas: O “Grande Prêmio de La Nácion Juan Perón" por Rainer Schulenburg - 1966
Girando sempre, uma e outra e mais uma e outra volta, Fangio aos poucos atingia o limite de suas forças. O calor era demais! O sol implacável deixara o metal de sua Mercedes em brasa. Sua perna esquerda, de tanto encostar na carroceria, já mostrava queimaduras de 2º. Grau. Mas Fangio continuava sozinho liderando a corrida. Atrás dele estavam os carros de Jean Behra, Alberto Ascari e Kling, montes de ferro retorcido. Stirling Moss repousava exausto no box, esperando uma ambulância. Castelotti estava desmaiado na enfermaria. E Fangio continuava juntando forças para vencer. Vencer o que? O Grande Prêmio da Argentina de 1955. Não foi esta uma exceção! Os Grandes Prêmios da Argentina tornaram-se as corridas mais temidas pelos corredores devido às trágicas razões que se acumularam gradativamente desde a inauguração da pista do Autódromo de Buenos Aires. Sonho de um Ditador procurando diversão para as massas, a função do Autódromo nos lembra a do Coliseu de Roma. Pela inépcia dos construtores esta semelhança iria confirmar-se de outras maneiras. O Autódromo foi construído em 10 meses numa planície à beira da cidade e é composto de um anel externo, o qual, do lado oeste, se estende para formar um dedo terminando numa curva em U, parecida com a curva sul do Anel de Nürburgo. Cinco pistas adicionais dentro do anel lhe dão o aspecto de um quebra-cabeça e permitem uma grande variedade de alternativas, com a deslocação de fardos de capim que fecham as pistas não utilizadas. Arquibancadas foram construídas em frente aos boxes acomodando quase 500 mil pessoas. A colocação dos boxes foi o primeiro ponto de crítica. Localizados logo após e do lado externo de uma curva extremamente rápida, tornaram-se um local de permanência perigoso. Bastava um carro perder um pouco o controle na curva, para espatifar-se contra o muro do box esmagando quem por acaso ali se encontrasse. Érico Plate faleceu nestas condições, em 1954, quando um piloto amador derrapou na curva e se lançou lateralmente contra o box. Outra crítica repetida por todos os volantes é um tipo de portão estreito no fim da reta oposta às arquibancadas. Em alta velocidade parece que o carro nem passa. Devia ter sido eliminado há muito tempo, já causou duas vítimas (uma delas o corredor Harry Blanchard ) mas continua lá esperando por outros infelizes. O problema pior só viria a ser confirmado no “G.P de la Nácion Juan Perón” – a impossibilidade de se controlar um público tão enorme em área tão restrita. Este G. Prêmio que seria seguido pelo “G.P Evita Perón”, uma semana depois, teve toda a publicidade que só uma Ditadura pode oferecer: cartazes por toda Buenos Aires convidavam à corrida; alto-falantes nas ruas repetiam “ad nauseam” o show de perícia que os campeões mundiais demonstrariam para o público; banquetes, bailes e recepções aos volantes estrangeiros eram manchetes diárias nos jornais.
Marcado para as 4 horas da tarde, num dia lindo e quente de verão, começa cedo a romaria para a pista. Por volta das 2 horas mais de 300 000 pessoas se espremem ao longo do arame que deveria mantê-los fora da pista. O calor insuportável e a massa impaciente. O Autódromo está lotado uma hora antes da corrida, mas milhares de pessoas ainda estão do lado de fora querendo entrar. Surgem as primeiras brigas. Os de fora insistem em entrar; começa o tumultuo. Armados de alicates, alguns cortam a cerca que contorna o Autódromo, por onde centenas de pessoas se infiltram. A polícia tenta desesperadamente botar os “penetras” para fora mas é impossível. Quase cem mil pessoas estão postadas ao longo da pista e lá fora outra massa insiste em ver a corrida que lhes foi prometida com tanta propaganda. Chega Perón e, lembrando-se que a função da corrida era distrair a massa, comete o erro fatal: mandou abrir os portões e retirar a polícia. A cerca protetora é arrancada por caminhões. Por estas horas a pista estava sumindo entre a massa humana que se aglomerava dos dois lados e os corredores recusavam a iniciar a corrida antes que fosse retirada toda essa gente. Era impossível. Restava só uma esperança: que o público sentisse o perigo e se acalmasse com o início da prova. Assim, largaram! Pressionados pelos espectadores de trás, os colocados na beira da pista começaram a invadi-la. Mais e mais estreita se tornou a faixa de rodagem. É um milagre que o massacre tenha esperado 21 voltas antes de começar. Por estas horas, quando vários corredores alegando defeitos mecânicos já haviam desistido, uma “Cooper” perdeu uma roda que se projetou contra a assistência, ferindo oito pessoas. Na 23ª. volta uma criança corre na frente do carro de Farina. Nino tenta desviar-se e lança a “Ferrari” de lado, contra a parede humana, abrindo um caminho de mortes e feridos. Outra criança é morta por uma “Cooper”. Não querendo entrar nos outros detalhes que se seguiram, quando a polícia voltou e tentou restabelecer a ordem, alguns foram mortos pela massa enraivecida. Ascari venceu esta corrida que deixou um saldo de 30 mortos e 127 feridos. Pelos técnicos de corrida esse tumultuo havia sido previsto, mas, quem iria opor-se contra a opinião de um líder? O Autódromo de Buenos Aires, construído para divertir as massas nos termos dos imperadores romanos, nunca deixou de exigir suas vítimas: Wimille e Malusardi, em 1949; Greene, em 1954; Blanchard, em 1960, sem contar as inúmeras pessoas da assistência. Não é por menos que hoje não faz mais parte do calendário dos Grandes Prêmios. Originalmente publicado na revista Auto-Esporte de agosto de 1966 - uma homenagem da Obvio ! ao Rainer, pai do Muca von der Schulenburg, que foi a primeira pessoa a nos contar das corridas da Barra da Tijuca, quando tínhamos nossos oito anos de idade ... onde trabalhava na Blase de Carli Propaganda, cuidando da conta da Bosch e nos enchia de informações ...
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