Antes de começar esse capítulo do nosso site, lembramos que dia 29 de junho de 2006 é o aniversário de 40 anos desse recorde histórico do Carcará. Ficamos muito felizes por que as mídias especializadas - dá lhe Jason Vogel !! - estão preparando matérias sobre o fato e ocorreram diversas solicitações de fotos de nosso acervo. De nosso lado, formatamos um grupo de trabalho formado por Anisio Campos, Roberto Renner, Dan Palatnyk e Lafayete Fantossi para finalizar o projeto tri-dimensional em computador do Carcará, com perfeição total em todos os detalhes com a maquete em escala sendo feita no LAMOT - Laboratório de Modelos Tridimensionais do INT - Instituto Nacional de Tecnologia, no Rio de Janeiro. 
Foram produzidas e vendidas no evento bia-anual "Motoring Arts" - 10 a 19 de outubro de 2006 - quarenta miniaturas do Carcará em escala 1:43 "Special Edition", autografadas por Anisio Campos com "Certificado de Autenticidade" da miniatura.
Completamente fiel ao modelo original, inclui todos os detalhes e grafismos, todas as unidades foram imediatamente vendidas ao preço de R$1.000,00 em pré-reservas, confirmadas através do e-mail sac@obvio.ind.br. Anisio e a miniatura do Carcará com "display" do recorde. .jpg)


 




A outra excelente notícia é que o Colecionador Gaúcho Antonio Trevisan encomendou ao "Carrozziere" e Mestre Toni Bianco um segundo exemplar do Carcará, que já está pronto e começando a subir as escalas de velocidades alcançadas, utilizando motor original de DKW ! 
Mestre Toni Bianco mostra suas ferramentas de alumínio e apresenta para Anisio sua visitação a partir da obra do autor, portanto: “d’après Carcará de Anisio Campos” 






F A B R I C A D O N O B R A S I L 
Rodrigo Campos - filho do Anisio - em 1966 com 4 anos - "babando" na maquete do Carcará que ia ser testada no túnel de vento do ITA - Instituto Tecnológico Aeroespacial em São José dos Campos Numa manhã de sol de 29 de junho de 1966, no início da BR-2 Rio-Santos (atual Avenida das Américas, na Barra da Tijuca), onde atualmente está instalado o Supermercado Carrefour e o Bosque da Barra, um esquisito carro branco alinhou no retão da estrada ainda em construção, sob o olhar de pouquíssimas testemunhas. 
O Carcará alinhado para a largada na BR-2: o bicho pegou, matou e comeu ... Seu nome era Carcará. Na época, a canção de mesmo nome -- música de José Candido e letra de João do Vale -- foi cantada pela Nara Leão e também pelo Chico Buarque, além da Maria Bethânia e fazia imenso sucesso no país: o pássaro que "pega, mata e come, mais coragem do que homem, o bicho que avoa que nem avião". Um libelo político pró-Nordeste, vale a pena ouvir. Naqueles tempos se fazia música de verdade no Brasil. A carroceria de alumínio, batida a mão numa fazenda de Matão, interior de São Paulo, foi montada sobre um chassi de Fórmula Júnior, com motor central-traseiro, feito por Chico Landi e Toni Bianco, uma categoria que, como tanta coisa no Brasil, não vingou. O volante era tão grande -- para reduzir os problemas de estabilidade direcional -- que precisava ser colocado no cockpit depois do piloto sentado.  Anisio Campos, Chico, o "Mestre-Funileiro" e Jorge Lettry nos desenvolvimentos na Fazenda Chimbó de Rino Malzoni, Matão - SP 
O Carcará estava na estrada para estabelecer o primeiro recorde brasileiro de velocidade absoluta, que seria homologado segundo padrões internacionais de medição. Atingiu 214,477 km/h empurrado por um motorzinho DKW de 1.100 cm³ e extraordinários 104 cv depois de preparado pelo gênio Miguel Crispim, que varava noites limando as janelas dos blocos para mais que dobrar a potência de motores que saíam de fábrica com 44 cv. 
Anisio dormia e acordava sobre o Carcará... como os estudos com guache branco para projetar o leme e passar as idéias para a equipe de modelagem, além dos grafismos diferenciadores a serem escolhidos ...   
 





Na estrada de Matão para o primeiro teste... parecia um "disco voador" andando... era 1966 ! Anisio Campos e Rino Malzoni que assinavam o design e o projeto, colocaram a inscrição "CARROÇARIA MALZONI-CAMPOS" nas suas laterais, abaixo da faixa verde e amarela do Brasil. Inicialmente ele foi batizado de "Arpoador" por seu idealizador, Jorge Lettry - Chefe do Departamento de Competições da Vemag - que o criou a idéia para estabelecer o recorde brasileiro de velocidade absoluta em linha reta (streamlined), baseado no carro quebrador de recordes "Flecha Prateada", da Auto-Union alemã. 


Os detalhes - incluindo o bico do Carcará - nos logos do 'streamlined" ! 
O "Silver Arrow" ou "Flecha Prateada" da Auto Union, o "streamlined" inspirador ... 
Jorge Lettry e Mario César "Marinho" de Camargo Filho 




 



Rino Malzoni, Anisio, Leszek Bilyk (ao volante) e Jorge Lettry 
Anisio e Leszek Bilyk, da Quatro Rodas, no primeiro teste. Marinho e Anisio trocam impressões em Interlagos ... 
Marinho e o Carcará em Interlagos 
Durante o primeiro e único ensaio de "comportamento sobre a estrada", indo direto para a saída da Curva 2 na grande reta (antiga) de Interlagos 

 


Foram oito meses de segredo na fábrica -- que já estava em processo de fechamento, pois a DKW seria comprada pela Volkswagen no final de 1966 e sua linha de automóveis, descontinuada no ano seguinte -- e oito meses de trabalho, até que na manhã de junho na Rio-Santos, onde o piloto escolhido para bater o recorde, Mário César de Camargo Filho -- o Marinho -- não sentiu muita confiança naquele bólido e desistiu. 
O Carcará estava ainda sem pintura (alumínio polido) e posteriormente foi pintado de branco (cor tradicional da Vemag ) e enviado ao Rio de Janeiro de carreta para tentar estabelecer o recorde de velocidade. 
Chico Landi e Anisio Campos examinam o "nariz" do "streamlined", após o teste do piloto Marinho, que constatou tendência de decolagem, quando próximo dos 200 km/h. 
Esta questionada dirigibilidade criou atritos entre Marinho, que era o piloto "número 1" da Equipe de Competições da Vemag e Jorge Lettry, que na última hora, convidou o piloto carioca Norman Casari, que acabou aceitando o desafio, mas sem antes colocar um volante de madeira com enorme diâmetro, para minimizar as reações em caso de necessidade, tornando a direção mais lenta. Afinal, o recorde seria em linha reta. 

Alinhado no retão da BR-2 - atual Avenida das Américas - na Barra da Tijuca - Rio de Janeiro. O projeto Carcará teve um grande padrinho: A Editora Abril, através do diretor de redação da Revista Quatro Rodas, Leszek Bilyk Ele tinha grande amizade com o Jorge Lettry e foi um dos grandes incentivadores em construir o carro. Tanto que fez com que a Editora Abril importasse um cronômetro Omega, com foto-células, moderníssimo para a época, apenas para bater o recorde. Isto é, houve um patrocínio e grande incentivo de Quatro Rodas, tanto que o logotipo da revista está nas laterais do Carcará. 
Norman Casari, pronto para decolar o Carcará ... 
Rino Malzoni, Norman Casari e Anisio Campos: os Designers e o Piloto do recorde brasileiro até hoje absoluto..... 
Jorge Letry (esq.), o piloto Norman Casari, Anisio Campos e Rino Malzoni -- ao fundo a Rural Willys da revista Quatro Rodas -- usada para carregar o sistema de cronometragem Omega, adquirido especialmente para medir o recorde do Carcará. O carro assustava. "A gente se escondia atrás de um Candango quando ele passava, de medo que o Norman fosse perder o controle", conta Crispim. Os pneus escolhidos, Pirelli Cinturato garantidos até 240 km/h, tiveram de ser trocados, na frente, por modelos de rua Stelvio ST-17 Spalla di Sicurezza, diagonais, tirados da Vemaguet de outro piloto e então funcionário da Vemag, Bob Sharp -- que participou do evento -- haviam sido feitos para rodar no máximo a 150 km/h. Os Cinturato tinham muita aderência e o carro entrava em pêndulo. Era preciso "descolar" a frente do Carcará do asfalto para que ele andasse em linha reta. O Carcará usou como paliativo estes pneus Pirelli diagonais, que no movimento da direção tinham reação mais lenta e deixavam o carro mais dirigível do que os radiais Cinturato, de menor atrito em linha reta e bem mais rápidos no movimento da direção, o que os italianos da Pirelli chamam de "Imediatezza di guida". Os técnicos da Pirelli estavam muito tensos: -- e se os pneus não agüentassem e dechapassem? Anisio lembra que por causa do sol e pelo calor gerado nos pneus após os primeiros testes, a equipe decidiu montar os pneus nas rodas nas águas da Lagoa de Marapendi, em baixo da ponte, deixando os pneus que iam ser usados no teste "de molho" dentro da água para obter temperatura abaixo da ambiente. 
Montando as rodas com pneus Pirelli resfriados nas águas do Canal de Marapendi O Carcará atingiu na primeira tentativa, 214,477 km/h e na segunda 211,329 km/h, obtendo a média de 212,903 km/h, foi a primeira marca brasileira e sul-americana de velocidade em linha reta, de acordo com a regulamentação da FIA e homologada pela Confederação Brasileira de Automobilismo. O motor chegou a engripar, perdendo potência, mas ficou registrada a primeira marca nacional. 
O momento da quebra do recorde, passando pelos cronômetros Omega da Revista 4 Rodas Quando tudo terminou o piloto Norman Casari estava radiante, pois tinha vivido a maior emoção das pistas. É claro que no exterior essa marca é insignificante, pois o recorde internacional era de 327 km/h em carros com cilindrada entre 751 e 1.100 cm³, e 965 km/h de potência livre, mas no Brasil e América Latina ninguém havia feito tentativa semelhante de superar o Carcará. Por isso, a tentativa pioneira da Vemag tem significado, pois daria um estímulo a outros fabricantes. - "A sensação era a de ver um avião decolando", lembra claramente Lettry.... 
Na noite do mesmo dia, Norman Casari inaugurou sua revenda DKW-Vemag, a Cota, na Rua Assunção, 401, em Botafogo, RJ - na foto acima, ao lado de Rino Malzoni e do seu pai, Antonio Casari. 
Anisio recebe os cumprimentos oficiais da Auto-Union da Alemanha pelos serviços prestados à marca 
O piloto Italiano Piero Taruffi - primeiro à esquerda, ao lado de Jorge Lettry - que veio dar o primeiro curso de pilotagem para os pilotos brasileiros... As concepções originais de estudos desenvolvidos por Anisio Campos 


O DKW Carcará deixou sua marca e proporcionou um retorno de mídia acima da expectativa. Pouco mais tarde Chico Landi e Toni Bianco desenvolveram nova versão do pequeno Fórmula Júnior, colocando um motor maior, de 2 litros, do FNM 2000 JK. Este desenvolvimento foi barrado após a morte de Celso Lara Barberis, que sofreu um acidente pilotando o carro na 500 km de Interlagos, pelo anel externo, quando disputava posições intermediárias na primeira volta e acabou tocando rodas com outro carro na subida da Junção. O Fórmula Júnior da Willys serviu de aprendizado para a equipe, que mais tarde contratou Toni Bianco para construir um Fórmula 3, que foi batizado de Gavião, em homenagem ao Circuito da Gávea que, nas décadas de 1930 a 1950, foi palco da corrida mais importante no Brasil, contando com a presença de muitos pilotos europeus famosos. O Gavião da Willys também não foi longe. Participou de uma temporada de quatro etapas internacionais, realizadas na Argentina, e foi pilotado por Wilson Fittipaldi Jr., mas só apareceu bem nas ruas de Rosário. O aprendizado do Fórmula 3 da Willys levou o chefe Luiz Antônio Greco a criar uma espécie de Fórmula Gordini, com motor de 845 cm3, mas a categoria também não vingou. A vida curta dos monopostos, equipados com motores nacionais, ficou apenas na experiência e as fábricas mantinham como principal ferramenta de marketing e de laboratório seus próprios modelos ou mesmo os derivados na versão "vale- tudo", que também chamavam de "carreteiras" das fábricas. Eram todas aliviadas sem limite regulamentar de peso, com teto baixo e motor que tinha o bloco de série com a máxima cilindrada possível, alimentados por livre quantidade de carburadores, um verdadeiro "Força Livre"... 
O Carcará em exposição na inauguração da revenda Cota, na Rua Assunção, 401, Botafogo em 29 de junho de 1966: da esquerda para a direita: Antonio Casari (pai de Norman), Norman, Italo Antonangeli (mecânico), Antônio Paulo Araújo, Bob Sharp, Miguel Crispim (O Mecânico), Rony Sharp (de terno), Jorge Lettry, Götz Walter Leider, Rino Malzoni e um amigo de Norman.  Rino Malzoni, Anisio Campos, Jorge Lettry e Marinho entregam o Carcará ao Depto. de Competições da Vemag Recorde batido, registrado pela revista Quatro Rodas, o Carcará voltou para a fábrica e depois disso, foi doado para Norman Casari.
O piloto Sidney Cardoso experimenta o Carcará na fábrica do Norman Casari O carro foi desmontado para aproveitar seu chassi na construção do protótipo Casari A1, que tinha motor V8 272 - tipo Y de Galaxie com 4,4 litros (não confundir com o 302 do Maverick !!!). Antes de ser desmontado, fez papel de carro de astronauta num filme experimental de um aluno de cinema da USP. Depois a carroceria foi cedida à Glaspac, uma empresa que fabricava buggyes e réplicas de carros em plástico reforçado com fibra de vidro. Ficou jogado num galpão por lá até que a Glaspac teve de esvaziar a área, chamou o caminhão de sucata e mandou esse capítulo da história do automobilismo brasileiro para um aterro sanitário qualquer, pois como ninguém sabia o que era aquele estranho carro que não servia para nada, o transferiram para uma Chácara na Represa do Guarapiranga e .... acabaram com ele, vendendo-o como sucata de alumínio. Anisio Campos ainda chegou a procurar insistentemente o Carcará na Glaspac, foi até à Chácara tentar achar os restos mortais, mas ninguém mais sabia para qual sucateiro foi vendido. Salvo alguém que o tenha guardado, o paradeiro do carro é completamente ignorado. Dele só restou a capa vermelha que o cobriu no glorioso dia do recorde no Rio de Janeiro, que está em poder do Neudy - que estava lá no dia, junto com o Bob Sharp - em Maricá, RJ (leia a matéria "O SANTO GRAAL" do Flavio Gomes, com link no final da página). O Colecionador e parceiro Paulo Trevisan desenvolveu com Toni Bianco a construção de uma réplica exata do Carcará, para colocar em seu museu do Automobilismo Brasileiro, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul. Um lugar merecido para um carro de motor 1-litro, feito no Brasil por brasileiros e que chegou ao incrível recorde de 212,903 km/h em 1966. Nós da Obvio ! continuamos a estudar com alguns patrocinadores as possibilidades do desenvolvimento do "Carcará 2008", para quebrar este recorde de motores até 1000cc aspirados, quarenta e dois anos depois ! Principais características técnicas do Carcará - Monoposto, chassi de treliça tipo Fórmula Júnior.
- Motor DKW central-traseiro, 3 cilindros em linha, dois-tempos, ,três bobinas e três platinados.
- Cilindrada: 1.089 cm3.
- Diâmetro dos cilindros e curso dos pistões: 78 x 76 mm.
- Potência: 104 cv DIN.
- Torque: 13 mkgf.
- Carburação: Solex 44 PHH, com carburador duplo e um duplo cortado, formando 3 corpos.
- Câmbio de quatro marchas para a frente.
- Freios a disco nas rodas dianteiras e a tambor nas traseiras.
- Suspensão independente nas 4 rodas, braços superpostos, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos
- Carroceria de alumínio moldada à mão.
- Pneus: traseiros, Pirelli Cinturato 165-15; dianteiros, Spalla di Sicurezza 5.60-15 .


Matéria na revista Auto Esporte - 1966  Clique nesta frase para conhecer as matérias da Revista Quatro Rodas no. 60 "CARCARÁ É O CARRO MAIS VELOZ DO BRASIL, de junho de 1965 e a no. 73 "CARCARÁ PEGA E VOA", de agosto de 1966. Clique nessa frase para conhecer a matéria "O Santo Graal" do Colunista Flavio Gomes, do site Grande Prêmio. A revista Quatro Rodas de 2000, faz referência ao histórico fato... |