|
O ex-campeão das Mil
Milhas de Interlagos de
1967, Luiz Fernando
Terra-Smith, carioca,
que viveu quase a vida
toda em São Paulo e à 4
anos mora em Curitiba
nos recebeu em sua casa
para um gostoso
bate-papo, recheado de
boas histórias e
nostalgia.

Terra-Smith foi piloto
oficial da fábrica
Willys, correu de Alfa
Romeo, inaugurou
circuitos e só sofreu um
único acidente na
carreira. Acompanhe
abaixo alguns trechos da
conversa:
RPMotors: Terra,
como e quando você
começou a gostar de
velocidade?
Smith: Nasci
gostando e aprendi a
gostar, boa parte devido
à guiar no colo do meu
pai, quando tinha 5-6
anos. Nem por isso corri
nas ruas, nunca fiz
“racha”. Comecei no
automóvel, não passei
pelo kart. Na época era
necessário fazer três
corridas sendo
considerado estreante;
fiz as três e ganhei-as.

Corri
de turismo, gran turismo
e protótipo. Iniciei
como Renault 1093 em
Interlagos, naquela
época quase não haviam
autódromos, mas sim
circuitos de rua. Um
amigo meu que era dono
de uma concessionária
Willis, ajudou com os
pneus e preparação do
carro ( o meu Renault
Gordini 1093). Em
retribuição venci as
três corridas sendo
patrocinado por ele.
Após,
fui convidado para
integrar a equipe de
competição da fábrica da
Willys. Eles fabricavam
os Renaults e os
Interlagos, que na
Europa eram chamados de
Alpine. Isso foi em 1964
e acabei fazendo um
contrato apenas “de
boca” com eles. Acabei
recebendo algo após ter
entrado com um processo
contra a fábrica (que já
havia sido absorvida
pela Ford). Foram dez
anos de briga; meus
amigos até me chamaram
de maluco, mas no final
ganhei a ação. Naquela
época poucos possuíam
contratos
assinados...Wilsinho
Fittipaldi, José Carlos
Pace, etc.
RPMotors: Após a
Willys, onde você
correu?
Smith: Corri na Alfa
Romeo (1971), com o
modelo GTA de 1600 e
1800cc. Era um carro
fantástico, o qual me
deu a vitória na
inauguração do autódromo
de Fortaleza.
RPMotors: Haviam
campeonatos estruturados
na época?
Smith: Somente em
São Paulo e Rio de
Janeiro. Em São Paulo
corria-se em Interlagos
no Rio na Barra da
Tijuca. Não haviam
autódromos no país,
ficávamos limitados ao
eixo Rio-SP. Após veio
Fortaleza e provas de
rua em Porto Alegre e
Brasília (que eram
disputadas na frente de
rodoviária).
A maioria
dessas provas era de
longa duração, seis e
doze horas.
Corri sempre em dupla,
na maioria das vezes com
Luis Pereira Bueno, mas
também fiz uma prova com
o Wilson Fittipaldi (GP
de Brasília). Também
corri pela equipe
Transparaná, uma empresa
de Curitiba, fazendo
provas pelos estados do
sul; pilotando um Willys
1000cc. Encerrei a
carreira em 1975.
RPMotors: Qual o
carro inesquecível que
você guiou?
Smith: Foram dois
carros; o Alfa Romeo e
um BMW Grupo 2 que
venceu o campeonato
europeu de turismo e foi
importado por um
empresário brasileiro.
Dei dez voltas nele em
Interlagos e achei
fantástico; aí via-se a
diferença que havia na
Europa em termos de
equipamento para
corridas.
RPMotors: E os
acidentes? Foram muitos?
Smith: Por incrível
que pareça só tive um
único acidente e foi de
Alfa. Eu estava
“amaciando” o motor,
quando o pneu estourou
na subida do lago em
Interlagos. Acertei o
guard rail de frente e o
resultado foi o volante
que bateu em cheio no
meu queixo.
RPMotors: Como
era Interlagos?
Smith: Era uma
maravilha. Conhecíamos
tão bem o circuito que,
quando vencemos as mil
milhas em 1967, deixamos
o Porsche Carrera da
dupla portuguesa para
trás exatamente quando
um nevoeiro baixou sobre
a pista, não se
enxergava nada a mais de
dois metros de
distância.
RPMotors: A
vitória nas mil milhas
foi a mais importante?
Smith: Também
considero a inauguração
do autódromo de
Fortaleza pois, saímos
de São Paulo em cima da
hora para a prova.
O
problema é que o dono da
equipe resolver colocar
mais um carro na
corrida; um amigo nos
emprestou o caminhão e o
motorista mas eu mesmo
resolvi pegar o volante!
Foram 3200 quilômetros
direto, dos quais dirigi
a maior parte do tempo.
Faltavam dois dias para
a prova e nos postos
policiais, os guardas
nos paravam para poder
tirar fotos ao lado do
carro. Cheguei “morto”
em Fortaleza, ainda na
véspera da prova.
Treinamos e ganhamos; eu
e o Marivaldo Fernandes.
RPMotors: Como
vocês faziam para
arrumar patrocínio?
Smith: Não era
normal alguém acreditar
em corrida de automóvel
para obter retorno. O
caso mais marcante foi a
da Bardhal que apoiou
Emerson Fittipaldi na
sua ida para a Europa.
Também haviam os
empresários que se
auto-patrocinavam.
RPMotors: Porque
você parou?
Smith: Por uma
questão muito simples,
chama-se bom senso. O
dinheiro era curto e
como não fui mais
convidado para guiar,
não quis mais me meter.
Fiz tudo para ir pilotar
stockcar nos EUA mas,
sem patrocínio ficou
impossível.
RPMotors: Hoje,
qual a categoria que lhe
atrai?
Smith: Se pudesse
voltar, gostaria de
pilotar os Vectra
Stockcar, Fórmula Truck
ou as caminhonetes da
Fórmula Country.
RPMotors: Você acha
que encontraria
dificuldades de começar
uma carreira atualmente?
Smith: Eu seria
imbecil se dissesse que
hoje é mais fácil.
Existe uma coisa chamada
sensibilidade e, quem já
correu sabe do que estou
falando. Não adianta dar
um “foguete” para o
cidadão que, na reta ele
acelera tudo mas, quando
tiver que vira o volante
é que a diferença
aparece.
O
kart é o melhor para
iniciar pois é rápido em
todos os sentidos mas,
deve-se saber se a
pessoa tem o “feeling”
para o negócio. Não
existe aquilo de falar
que, se o pai é piloto e
filho também será.
RPMotors: Qual é
o melhor piloto na
atualidade?
Smith: O que mais
se aproxima à perfeição
é o Michael Schumacher.
RPMotors: E o
melhor de todos os
tempos?
Smith: Foram dois;
Jim Clark e Ayrton
Senna. Eles guiavam nas
pontas dos dedos. Era
bom ver eles fazendo as
curvas de lado,
sobretudo Clark pois
naquela época os Fórmula
1 ainda não possuíam
aerofólios.
RPMotors: Qual o
carro de corrida ideal
para se pilotar,
atualmente?
Smith: Eu gostaria
muito de pilotar um
McLaren GT ou um Porsche
protótipo, pois não sou
muito fã de monopostos.
RPMotors: E na sua
garagem? Qual o carro
que você gostaria de ter
estacionado?
Smith: O que eu
tenho agora, um Uno
Mille! Porque? Não temos
combustível confiável e
nem estradas ou ruas
para se dirigir um
carrão. Além, os preços
dos seguros são muito
altos e os ladrões ficam
de olho em quem tá de
importado; até peça
demora para chegar...
RPMotors: A Internet
é um bom caminho para a
divulgação do
automobilismo e da
história?
Smith: A tecnologia
em si é muito bem vinda,
seja ela para ajudar nas
competições ou aos
usuários dos veículos. A
divulgação deve ser
feita, sobretudo a
história, seja ela boa
ou ruim. Deve-se
preservar os momentos
pois a informação é
fundamental às pessoas,
nem que seja numa
conversa de bar. Não
adianta só ver a vida
passar, tem que se
adquirir conhecimento.

O AC no
Rio de Janeiro em 1969 -
O preparador Roger Rezny,
Ricardo
Divila e Luiz
Fernando Terra-Smith, ao
lado.
Assessoria de Imprensa :
Chrystian P. Meissner
-
chrys@rpmotors.com.br
/
Publicado originalmente
no site:
http://www.rpmotors.com.br
clique
aquí para voltar à anisio campos = automobilismo brasileiro anos `60 a `80
Fale conosco pelo sac@obvio.ind.br
- © Obvio !
|