O Piloto Luiz Fernando Terra-Smith

 

 O AC no Rio de Janeiro em 1969:  Wilson Fittipaldi - piloto, Ricardo Divila e Luiz Fernando Terra-Smith


O ex-campeão das Mil Milhas de Interlagos de 1967, Luiz Fernando Terra-Smith, carioca, que viveu quase a vida toda em São Paulo e à 4 anos mora em Curitiba nos recebeu em sua casa para um gostoso bate-papo, recheado de boas histórias e nostalgia.



Terra-Smith foi piloto oficial da fábrica Willys, correu de Alfa Romeo, inaugurou circuitos e só sofreu um único acidente na carreira. Acompanhe abaixo alguns trechos da conversa:


RPMotors:
Terra, como e quando você começou a gostar de velocidade?

Smith: Nasci gostando e aprendi a gostar, boa parte devido à guiar no colo do meu pai, quando tinha 5-6 anos. Nem por isso corri nas ruas, nunca fiz “racha”. Comecei no automóvel, não passei pelo kart. Na época era necessário fazer três corridas sendo considerado estreante; fiz as três e ganhei-as.

Corri de turismo, gran turismo e protótipo. Iniciei como Renault 1093 em Interlagos, naquela época quase não haviam autódromos, mas sim circuitos de rua. Um amigo meu que era dono de uma concessionária Willis, ajudou com os pneus e preparação do carro ( o meu Renault Gordini 1093). Em retribuição venci as três corridas sendo patrocinado por ele. Após, fui convidado para integrar a equipe de competição da fábrica da Willys. Eles fabricavam os Renaults e os Interlagos, que na Europa eram chamados de Alpine. Isso foi em 1964 e acabei fazendo um contrato apenas “de boca” com eles. Acabei recebendo algo após ter entrado com um processo contra a fábrica (que já havia sido absorvida pela Ford). Foram dez anos de briga; meus amigos até me chamaram de maluco, mas no final ganhei a ação. Naquela época poucos possuíam contratos assinados...Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, etc.

RPMotors: Após a Willys, onde você correu?

Smith: Corri na Alfa Romeo (1971), com o modelo GTA de 1600 e 1800cc. Era um carro fantástico, o qual me deu a vitória na inauguração do autódromo de Fortaleza.

RPMotors: Haviam campeonatos estruturados na época?

Smith: Somente em São Paulo e Rio de Janeiro. Em São Paulo corria-se em Interlagos no Rio na Barra da Tijuca. Não haviam autódromos no país, ficávamos limitados ao eixo Rio-SP. Após veio Fortaleza e provas de rua em Porto Alegre e Brasília (que eram disputadas na frente de rodoviária).

A maioria dessas provas era de longa duração, seis e doze horas. Corri sempre em dupla, na maioria das vezes com Luis Pereira Bueno, mas também fiz uma prova com o Wilson Fittipaldi (GP de Brasília). Também corri pela equipe Transparaná, uma empresa de Curitiba, fazendo provas pelos estados do sul; pilotando um Willys 1000cc. Encerrei a carreira em 1975.


RPMotors:
Qual o carro inesquecível que você guiou?

Smith: Foram dois carros; o Alfa Romeo e um BMW Grupo 2 que venceu o campeonato europeu de turismo e foi importado por um empresário brasileiro. Dei dez voltas nele em Interlagos e achei fantástico; aí via-se a diferença que havia na Europa em termos de equipamento para corridas.

RPMotors: E os acidentes? Foram muitos?

Smith: Por incrível que pareça só tive um único acidente e foi de Alfa. Eu estava “amaciando” o motor, quando o pneu estourou na subida do lago em Interlagos. Acertei o guard rail de frente e o resultado foi o volante que bateu em cheio no meu queixo.

RPMotors: Como era Interlagos?

Smith: Era uma maravilha. Conhecíamos tão bem o circuito que, quando vencemos as mil milhas em 1967, deixamos o Porsche Carrera da dupla portuguesa para trás exatamente quando um nevoeiro baixou sobre a pista, não se enxergava nada a mais de dois metros de distância.

RPMotors: A vitória nas mil milhas foi a mais importante?

Smith: Também considero a inauguração do autódromo de Fortaleza pois, saímos de São Paulo em cima da hora para a prova. O problema é que o dono da equipe resolver colocar mais um carro na corrida; um amigo nos emprestou o caminhão e o motorista mas eu mesmo resolvi pegar o volante! Foram 3200 quilômetros direto, dos quais dirigi a maior parte do tempo. Faltavam dois dias para a prova e nos postos policiais, os guardas nos paravam para poder tirar fotos ao lado do carro. Cheguei “morto” em Fortaleza, ainda na véspera da prova. Treinamos e ganhamos; eu e o Marivaldo Fernandes.

RPMotors: Como vocês faziam para arrumar patrocínio?

Smith: Não era normal alguém acreditar em corrida de automóvel para obter retorno. O caso mais marcante foi a da Bardhal que apoiou Emerson Fittipaldi na sua ida para a Europa. Também haviam os empresários que se auto-patrocinavam.

RPMotors: Porque você parou?

Smith: Por uma questão muito simples, chama-se bom senso. O dinheiro era curto e como não fui mais convidado para guiar, não quis mais me meter. Fiz tudo para ir pilotar stockcar nos EUA mas, sem patrocínio ficou impossível.

RPMotors: Hoje, qual a categoria que lhe atrai?

Smith: Se pudesse voltar, gostaria de pilotar os Vectra Stockcar, Fórmula Truck ou as caminhonetes da Fórmula Country.

RPMotors: Você acha que encontraria dificuldades de começar uma carreira atualmente?

Smith: Eu seria imbecil se dissesse que hoje é mais fácil. Existe uma coisa chamada sensibilidade e, quem já correu sabe do que estou falando. Não adianta dar um “foguete” para o cidadão que, na reta ele acelera tudo mas, quando tiver que vira o volante é que a diferença aparece.

O kart é o melhor para iniciar pois é rápido em todos os sentidos mas, deve-se saber se a pessoa tem o “feeling” para o negócio. Não existe aquilo de falar que, se o pai é piloto e filho também será.

RPMotors: Qual é o melhor piloto na atualidade?

Smith: O que mais se aproxima à perfeição é o Michael Schumacher.

RPMotors: E o melhor de todos os tempos?

Smith: Foram dois; Jim Clark e Ayrton Senna. Eles guiavam nas pontas dos dedos. Era bom ver eles fazendo as curvas de lado, sobretudo Clark pois naquela época os Fórmula 1 ainda não possuíam aerofólios.

RPMotors: Qual o carro de corrida ideal para se pilotar, atualmente?

Smith: Eu gostaria muito de pilotar um McLaren GT ou um Porsche protótipo, pois não sou muito fã de monopostos.

RPMotors: E na sua garagem? Qual o carro que você gostaria de ter estacionado?

Smith: O que eu tenho agora, um Uno Mille! Porque? Não temos combustível confiável e nem estradas ou ruas para se dirigir um carrão. Além, os preços dos seguros são muito altos e os ladrões ficam de olho em quem tá de importado; até peça demora para chegar...

RPMotors: A Internet é um bom caminho para a divulgação do automobilismo e da história?

Smith: A tecnologia em si é muito bem vinda, seja ela para ajudar nas competições ou aos usuários dos veículos. A divulgação deve ser feita, sobretudo a história, seja ela boa ou ruim. Deve-se preservar os momentos pois a informação é fundamental às pessoas, nem que seja numa conversa de bar. Não adianta só ver a vida passar, tem que se adquirir conhecimento.

O AC no Rio de Janeiro em 1969 - O preparador Roger Rezny, Ricardo

Divila e Luiz Fernando Terra-Smith, ao lado.

 

Assessoria de Imprensa : Chrystian P. Meissner - chrys@rpmotors.com.br  /

Publicado originalmente no site:  http://www.rpmotors.com.br

 

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